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Sonho e pesadelo

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Alexandre Garcia

O sonho do hexa acabou agora. Para sonhar de novo não hexa só em quatro anos. Será que vamos acordar para um pesadelo de quatro anos de mandatos dos eleitos em 4 de outubro? Agora é pensar no sério. Se tivéssemos realizado o sonho do hexa, isso não mudaria o nosso futuro, mas a seleição – perdão – a eleição de outubro pode ter a chance de mudar o nosso amanhã – ou piorar. Depende não de nossa torcida, mas de nosso voto, que é coisa muito séria. Como somos uma nação festeira, festejamos nos estádios, nas praias, na avenida, nos bares, para afastar a realidade de povo sofrido. Assim fugimos da realidade que nos oprime, em vez de a enfrentarmos, modificando-a. A Declaração de Independência que no dia 4 os americanos festejaram, estabelece o direito de alterar ou abolir o sistema que prejudique a vida, a liberdade, a busca da felicidade, já que o poder dos governos deriva do consentimento do povo. Eles pegaram em armas depois dessa Declaração, para confirmar suas intenções. Aqui, nossa arma é o voto.

Nos últimos 50 anos, assisti à transformação do futebol em negócio de espetáculo, em show business. O jogador virou um artista no grande circo que compensa a escassez de picanha ou liberdade. Desvia para os gramados os olhos e ouvidos do brasileiro, para que ele seja rebaixado de cidadão a apenas torcedor. Os gritos de gol descarregam a energia, para ela não ser carregada contra os corruptos, os mentirosos, os enganadores. E multidões são usadas como audiência que sustenta fortunas para a FIFA, os clubes, os cartolas, os jogadores, as tevês, as cervejarias, os bares, os construtores de estádios em lugar de escolas e hospitais – e respectivas propinas. Aqui na capital do Brasil, o serviço público fechou às 11 da manhã, por causa de um jogo às 14 horas, reconhecendo que o futebol é mais importante que a prestação de serviços por parte do estado. 

Não é assim em boa parte do mundo. E o futebol mostrou isso neste torneio da FIFA. Até no futebol o Brasil ficou para trás. A superioridade norueguesa no campo não foi um acaso, mas um sinal. Mais velocidade física e mental se impôs à nossa lentidão mental que a cada vez mais vai ficando distante do mundo. Nosso belíssimo hino foi descoberto e aplaudido, mas estamos deitados em berço esplêndido. Deitados sobre um potencial gigantesco, amarrados por uma classe política que não investe no ensino básico, porque não quer ninguém com a velocidade mental de um Haaland. Às vésperas das convenções, os partidos não discutem ideias, planos, objetivos, mas nomes de candidatos que possam fazer gols na urna que dá poder sobre o uso do dinheiro do público, em vez de resgatar um país que se desintegra. A falta de conhecimento, compensada por futebol, carnaval, festas e praias, impede que a maioria boa e ingênua perceba que lentamente vamos afundando. É a camuflagem para não despertar nosso interesse sobre nosso próprio futuro como país. Sem perceber que se o país vai mal, nos arrasta a todos, ou, pelo menos, a maioria que não tenha alternativa fora de nossas fronteiras.

Como eu recomendei no meu canal no YouTube no dia da despedida da equipe brasileira: Guardai as vossas bandeiras, guardai! Das janelas, dos carros, das lojas, dos bares e restaurantes, dos vossos condomínios e comunidades. Guardai-as todas para serem desfraldadas no primeiro dia da Semana da Pátria. O Sete de Setembro vai ser o nosso aniversário como país independente, 204 anos. A Declaração que completou 250 anos no sábado, até hoje tem por base que liberdade, a vida e a busca de felicidade, não são concessões de governos, mas dons do Criador. A bandeira do Brasil não representa apenas uma torcida de equipe de futebol; representa cada um de nós e nos avisa que a ordem conduz ao progresso. Se nosso patriotismo só entra em campo na Copa, seremos eliminados. Nosso sonho tem que estar muito acima do hexa. 

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