Opinião

Relacionar-se e ser igreja em tempo de Pandemia

Vítima da Covid-19, Dom Derio Olivero, de Pinerolo (Itália), viveu por cinquenta dias o purgatório da internação num hospital, safando-se da morte por um fio. Chegou a afirmar estar vivo “por milagre” tamanha a agressividade do malleddeto vírus e da gravidade do quadro clínico. Fez a experiência da finitude e da profunda fragilidade humana de modo bem radical, mas venceu, graças às orações do povo de Deus e ao poder de Deus. Hoje, vivo, lúcido e agradecido, ele narra a lúgubre história.

Trata-se de um homem alinhado com a teologia que anima e inspira o coração do Papa Francisco, ou seja, de alguém que sonha com uma Igreja “que saiba dar voz à vivacidade do cristianismo e à transparência do evangelho; que ajude a pensar com liberdade e que aposte muito nas relações”. De uma Igreja que viva as bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12) e que combata com força e profetismo as políticas do anticristo, daquelas forças obscurantistas do antireino que conspiram contra a vida e a justiça social.

Na entrevista concedida a Chiara Genisio e publicada na Revista Vita Pastorale, edição de agosto-setembro de 2020 (cf. http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/601354), o prelado ao citar o teólogo P. Giuliano Zanchi, diz que “as palavras da Igreja estão desgastadas”. Ele reconhece que, nos tempos atuais, a pregação da Igreja “não afeta a vida e não abre para a esperança. Esta é uma das fragilidades da nossa Igreja. Em uma época de mudança radical de paradigma, ainda não encontramos palavras para falar do cristianismo de uma nova maneira. A Igreja muitas vezes é uma boa máquina organizacional, mas não uma comunidade de relações”.

Não é à toa que o estimado Papa Francisco insiste tanto na Igreja “em saída”, na igreja samaritana, na igreja que se mistura com a massa qual fermento. Mas o fermento que estamos usando é de boa qualidade? As obras acompanham as nossas pregações?! Temos demonstrado alegria na nossa viva/vivência cristã? De maneira cáustica, Nietzsche cutucava: “Cristãos, mostram-me a vossa alegria e eu vos crerei”.

Ao escrever uma carta aos padres da Diocese, foi categórico: “Um sacerdote não pode presidir a Eucaristia, a menos que se importe com as relações. Caso contrário, a Eucaristia se torna artificial e formal”. Depreende-se, pois, que construir relações saudáveis, autênticas e confiáveis com as pessoas seja uma das missões mais urgentes neste tempo tenebrosa de pandemia. Se efetivamente a Igreja pretende reinventar-se deve levar muito a sério a questão do ressignificar as relações que se trava com os outros, com o outro e com a natureza. Desgraçadamente, hoje, tudo está se tornando descartável, incluindo as relações intrafamiliares.

Trata-se da cultura da obsolescência programada de um mundo líquido (Bauman), ideologia construída a partir do jargão “um produto que não se desgasta é uma tragédia para os negócios”. Talvez estejamos vivendo o paroxismo daquilo que preconizado por K. Marx em 1848: “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas”. Certezas, instituições, sentido de pertença, veneráveis tradições, etc. tudo parece virar pó. Por outro lado, nunca se viu tanta intolerância, dogmatismos e ódios.

Entretanto, com este cenário cinzento e materialista é justo dizer que “as palavras da Igreja estão desgastadas”? Será verdade?! Até que ponto a Igreja deve “conformar-se” e/ou adaptar-se com os esquemas deste mundo? Não será a floresta de joio plantada pelo Inimigo que está sufocando as sementes do Reino? É verdade e é forçoso reconhecê-lo que em muitos ambientes a religião se tornou reduto de sepulcros caiados e de fariseus hipócritas, mas é de bom alvitre lembrar que o evangelho quando vivido e pregado de verdade arde, incomoda, dói… Não há como escapar dos conflitos. Veritas odium parit. Quem pode suportá-lo? Já no seu tempo Jesus diagnosticava: “Esta geração má e perversa” (cf. Mt 12,39) quer “sinais” espetaculares, pirotecnias, circo, autoajuda. Mas nada lhe será dado.

Que realmente importa na vida? Dom Derio lembra que “quando estava perto da morte e tudo evaporava, muitos rostos apareceram em minha mente”. Estas fisionomias foram tão importantes que “permaneceram parte de mim com a confiança em Deus, que é outra relação”. E aqui ele toca, precisamente, no cerne da questão: “Relação é a capacidade de abrir espaço para outra pessoa, saber prometer algo aos outros e ser-lhe fiel”. Segundo o conhecido teólogo, cresce o consenso entre os grandes cosmólogos e físicos quânticos que “tudo é relação. Não existe fora da relação. Todos se ajudam para continuar existindo e podendo co-evoluir.

O próprio ser humano é um rizoma (bulbo de raízes) de relações em todas as direções”. Toda boa relação se funda na confiança e no respeito. A experiência da doença e do risco iminente da morte provou ao prelado uma grande verdade: “As relações são a parte mais verdadeira de nós mesmos”. É o lugar da revelação, o lugar da epifania da vida e do divino, o lugar onde o diálogo entremeado de silêncio e palavras se fecunda e se exige.

Sem relações afetivas e efetiva a gente atrofia e morre. Viver sem construir qualquer tipo relação significa caminhar rumo ao nada, ao absurdo, ao non sense. Que é o inferno senão a solidão absoluta!? As relações que estabelecemos, de alguma forma, modelam a vida, “arrancando-a da normose (normalidade doentia) e despertando outros recursos internos, que não foram ainda mobilizados… A vida sempre está oculta nas profundezas. A pessoa superficial é aquela que se confunde com suas ideias, certezas, coisas… A pessoa do ‘eu profundo’ é aquela que vive a partir da raiz, da fonte mesma da vida, e deixa vir à tona todas as suas riquezas, dons, capacidades” (Pe. A. Palaoro,SJ).

“Viver é perigoso” (G. Rosa). A posteriori, após passar pelo fogo da doença e do tratamento, Dom Derio partilhou: “Depois de ter corrido o risco de morrer, percebi que me foi concedida outra oportunidade. Eu tenho um enorme senso de gratidão”. Nova oportunidade! Deus nos concede tantas oportunidades para crescermos, para despertarmos do sono da mediocridade, para melhorarmos o nosso caráter, para amadurecermos, para santificarmos…

Que lição o flagelo da pandemia nos deixará como legado? Será a melancólica normose!? Não obstante a via crucis de milhares de família que enterram seus entes queridos e de milhões de infectados pela terrível pandemia, muitos fingem indiferença e/ou dormem no berço esplêndido da alienação e da ignorância, cultuando ídolos de todos os naipes e ainda pousando de bacanas. Tristes trópicos, os nossos!

Padre Roberto Gottardo, SJ, - pároco da paróquia matriz Santo Antônio de Sinop