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Sinopense morto na guerra na Ucrânia gravou vídeo após derrubar drone russo; irmã relata últimos dias; vídeo

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Só Notícias/Kelvin Ramirez (foto: reprodução)

O morador de Sinop, Fernando Pereira Lisboa, de 40 anos, morto após ser atingido em um ataque de drone na região de Zaporizhzhya, no sudeste da Ucrânia, na noite da última sexta-feira, havia compartilhado no mês passado a familiares e amigos um vídeo em que comemorava a derrubada de um drone russo. Ao Só Notícias, a irmã informou que a gravação foi feita no dia 8 de maio, poucos dias após ele concluir treinamento militar no país europeu.

Fernando chegou à Ucrânia em março, sem qualquer experiência militar. Segundo a irmã, logo após desembarcar no país, ele contraiu pneumonia devido às baixas temperaturas, mas se recuperou e, após o treinamento, foi enviado à linha de frente. “Ele chegou lá e, devido ao frio e ele sem costume com frio, que aqui é muito calor, teve pneumonia, ficou internado. Aí depois se recuperou. Ele não tinha nenhuma experiência militar. Aqui mesmo, nunca tinha pegado em arma de fogo, nada, nada, nada. Esses treinamentos foram tudo lá. Ele fez o treinamento, aprendeu a atirar, derrubou o drone, aí já pegaram ele e colocaram logo na linha de frente porque viram que ele era bom de pontaria, bom de derrubar drone. Ele ficou 32 dias na linha de frente, na trincheira. Aí, na sexta-feira, ele foi atingido e morreu”, afirmou a irmã.

A familiar relatou ainda que Fernando via a participação no conflito como uma missão pessoal e humanitária. “Ele disse que ia para lá, que ele ia lutar, que ele já estava com 40 anos, mas ele ia dar a vida dele pela vida de pessoas, pessoas mais novas do que ele, dar vida por mulher, dar vida dele por criança. Ele foi para lá só mesmo para lutar. Ele não foi para lá interessado em ganhar dinheiro igual estão falando na internet que ia por dinheiro, por isso, por aquilo. Não. Ele foi para lá porque disse que tinha que cumprir uma missão, ele deveria cumprir a missão dele e a dele seria essa, dar a vida dele por alguém. E esse alguém estava precisando dele. Aí ele pegou e foi”.

Ela também contou que o irmão ficou sensibilizado com a situação da população local. “Ele disse para mim que lá chegava a dar dó de ver as crianças, crianças sem pai, que os pais já tinham morrido na guerra, crianças sem pai, somente com a mãe. A cidade estava bem devastada e ele diz que realmente lá não tinha homem. Quase não tinha homem de lá, mesmo da Ucrânia, é mais de outros países. Ele diz que, quando chegou lá, foi muito bem recebido. As ucranianas, as crianças, as mulheres os receberam muito bem. Ele ficou muito feliz em chegar lá. E diz que realmente estava no lugar certo, que ele ia lutar por aquele povo. Ia lutar, ia ficar lá até o último dia da vida dele. Só que a gente não imagina, né? Que seria tão breve, muito breve, três meses só, ele se foi”, contou.

Dias antes de morrer, Fernando relatou à família o agravamento dos combates na região. “Quinta-feira conversei com ele de madrugada, aí ele disse que lá estava muito difícil, que a Rússia estava mandando muito drone para lá, tinha muito drone russo. E ele disse que estava muito difícil, muito complicado e era somente para a gente orar e pedir a Deus para abençoar e guardar eles lá, que ele também ia olhar para o céu e ia pedir a bênção de Deus sobre nós aqui no Mato Grosso. Era somente para a gente orar por eles, que lá estava muito difícil, muito difícil, muito drone, muita bomba para tudo quanto é lado, tiro, disse que não sabia para onde eles correriam”, detalhou.

A notícia da morte chegou à família no sábado. “Na sexta-feira, eu não tive tempo de conversar com ele devido à minha correria e, no sábado, eu estava organizando o serviço da minha casa. Peguei o celular duas vezes para ligar para ele, para conversar com ele, e não deu. Aí surgiram outros problemas aqui. Quando eu olhei no telefone, o telefone estava tocando, né? O sargento dele estava ligando para mim, aí eu atendi a ligação, foi a notícia mais difícil, a notícia mais triste da minha vida, que eu perdi meu único irmão, filho do meu pai e da minha mãe. Só éramos nós dois e a minha mãe. A gente está sentindo muito a falta dele, muito, muito mesmo. Toda vez que eu ouvi a voz dele, para mim era uma alegria muito grande, muito grande. Uma alegria que não tem nem como explicar, porque da situação que eles estavam passando, cada dia era um dia de vitória. Era para comemorar cada dia vencido porque era muito difícil”.

No vídeo gravado após derrubar o drone, Fernando enviou uma mensagem aos amigos e familiares de Sinop. “E aí, rapaziada de Sinop, um abraço aí para todos os meus amigos, para o pessoal da minha família, o que não é da família é amigo, é da família também, aqui, estou passando para comunicar vocês aqui, que Sinop também derruba drone, tá, aí ó, derrubei hoje”.

Em seguida, ele descreveu a ação. “Tinha uma carga aqui em cima, esse daqui é um drone FPV controlado via remoto, aí vem uma carga aqui em cima, tem uma câmera aqui, uma câmera traseira, levou e ‘boom’ no inimigo, esse daqui não teve sorte, esse daqui não teve sorte. A bala do fuzil, atirei com o fuzil, atirei, a bala bateu aqui e acertou a carga aqui em cima, ele começou, incendiou, ele já tombou, caiu na terra, esfriou, a galera pegou, me deu como prêmio de guerra, é isso aí, um abração, fiquem todos com Deus. Estou passando aqui só para mostrar o meu troféu”.

Conforme Só Notícias já informou, na sexta-feira, Fernando participava de uma missão quando ele e outros dois soldados foram atingidos em um ataque com drone. No sábado, o corpo foi recolhido e identificado pelas autoridades militares. Segundo familiares, os procedimentos fúnebres serão realizados na própria Ucrânia. Em razão das dificuldades logísticas e dos custos de translado em meio ao conflito, o corpo não será enviado ao Brasil. A informação repassada à família é de que, após o término da guerra, as cinzas deverão ser encaminhadas ao país pelas autoridades ucranianas.

A guerra entre Rússia e Ucrânia começou em fevereiro de 2022. Desde então, o conflito já deixou dezenas de milhares de mortos e feridos, com combates concentrados principalmente nas regiões leste e sul do território ucraniano.

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