Política

Ministro teme que CPI dos Correios afete economia

O ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho, engrossou a articulação do governo para debelar a crise na base governista e o risco de instalação da CPI dos Correios. Recorrendo ao argumento de que uma crise política pode abalar a economia, Palocci esteve na casa do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), na noite de quinta-feira. De lá, foi jantar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Granja do Torto.

Na conversa, Palocci manifestou preocupação com a fragilidade da base aliada. Renan foi o porta-voz dessa apreensão ontem, ao falar da disposição do brasileiro, inclusive o empresariado, de ajudar o governo. “O empresariado quer remover gargalos para que o país continue a crescer e teme que a crise política arruíne o ambiente econômico”, afirmou Renan.

Com 85 deputados (29 deles signatários do pedido de CPI) e 22 senadores, o PMDB é alvo da ofensiva do governo. Ontem, Renan e o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) tomaram café com Lula. Na véspera, Renan almoçou com o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT).

A todos, o PMDB impôs as três condições capazes de aplacar a insatisfação de seus parlamentares, a começar por uma reforma ministerial “sistêmica”, incluindo os cargos nos Estados. Nas conversas, o PMDB se queixa de ocupar dois ministérios técnicos (Previdência e Comunicações) e exige um ministério político, lembrando que essa foi a promessa do governo em 2004 para contemplar um partido “municipalista”.

Os peemedebistas alegam que se sentem alijados da base por terem ingressado no governo um ano depois de sua montagem. O partido reclama do aparelhamento do Estado pelo PT. Defensor de maior participação do PMDB no governo, Mercadante concorda: “O PT tem que deixar o presidente à vontade para compor seu governo. Para alguns petistas, aliança é que nem dentista. Ninguém gosta, mas tem que ir”.

Responsável pela condução da CPI, Renan tem alegado que a rebelião da base foge a suas atribuições e que não pode comprometer sua isenção. “Sou presidente do Senado. Não sou líder do governo. Tenho compromisso com a governabilidade até as últimas conseqüências. Mas meu limite é a Constituição, o regimento”, diz.

Além de uma participação no governo compatível ao tamanho do PMDB, o partido defende a construção de um pacto de não-agressão nos 17 Estados em que seus candidatos são favoritos ao governo. Nos Estados já governados pelo PMDB, o pedido é de apoio institucional. Os peemedebistas argumentam que, quanto mais debilitados em seus Estados, governadores como Roberto Requião (PR) e Germano Rigotto (RS) desistirão da reeleição e irão para o confronto com Lula. Hoje o partido começa a perder confiança nas promessas do governo.

Além disso, o PMDB tem defendido maior volume de investimentos nos Estados: “Disse ao Lula e ao Palocci que uma mudança fundamental do Orçamento é tirar o gasto social do contingenciamento. Deixar de cumprir as metas da reforma agrária para satisfazer às de superávit, já em maio, parece pouco explicável”.

Tendo que administrar a crise no Senado, Mercadante tem defendido, com veemência, melhor tratamento ao partido. Segundo ele, “há um problema de relacionamento com o PMDB” e “falta atenção ao partido”. Na quinta-feira, Mercadante teria protagonizado uma ríspida conversa com Lula e com o ministro José Dirceu na defesa da reforma ministerial. Questionado sobre o tom da discussão, Mercadante não quis confirmar se fora uma dura conversa. “Pergunte ao presidente.”

Mercadante cobrou do governo a rearticulação da base. Em resposta, Lula acusou o senador de ter fomentado a crise ao trabalhar contra a reeleição de João Paulo Cunha (PT-SP). Lula reclamou ainda da atuação de Mercadante na votação que derrubou a escolha de Alexandre de Moraes para o Conselho Nacional de Justiça, no mesmo dia em que, num café da manhã, o presidente prometeu uma relação institucional com a oposição. O presidente, segundo participante, pediu que Mercadante esquecesse São Paulo.

Boletim

Em boletim distribuído anteontem a seus clientes, a empresa de consultoria Tendências avalia que a perspectiva de continuidade da agenda econômica contribui decisivamente para manter os mercados imunes às turbulências políticas vividas pelo governo.

Dito de outra forma, os investidores entendem que, a partir da aplicação do receituário ortodoxo pelo PT, a disputa pelo poder deixou de significar ameaça visível aos pilares da economia.