Política

Malas com dinheiro apreendidas da Universal seriam para para políticos

Há males que vêm para o bem e malas
que vão para Belém, diz a piada. Mas, na Igreja Universal do Reino de Deus, do
bispo Edir Macedo, malas cheias vão
para todos os lados, há muito tempo. O que se viu na segunda-feira 11, no aeroporto de Brasília – a apreensão pela Polícia Federal de R$ 10,2 milhões em sete malas com o bispo e deputado federal João Batista Ramos (PFL-SP), num avião da Universal –, é fato comum, relatam ex-integrantes da igreja. Tanto que um dia antes, no aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, outros dois políticos da igreja, o deputado George Hilton (PFL) e o vereador Carlos Henrique (PL), foram pegos com 11 malas lotadas de dinheiro e liberados, sem que ninguém soubesse do fato no dia.

Um dos “laranjas” na compra da TV Record Rio, José Antonio Alves Xavier, também confirmou em depoimento à PF que a negociação, em junho de 1992, foi paga em espécie. Na oportunidade, disse ter visto “uma quantidade enorme de dinheiro acondicionada em malas”, além de “farto armamento de grosso calibre”. Agora, em nota oficial, a Universal garantiu que o dinheiro veio de doações. Mas soou estranho para ex-integrantes da igreja a grande quantidade de notas de R$ 100 e R$ 50. Os fiéis são, em sua quase totalidade, pessoas de origem humilde, que não costumam doar notas de alto valor. Alguns maços de cédulas também tinham números em série e passaram por bancos, segundo a PF. Uma das hipóteses é a de que a Universal iria fazer algum pagamento.

Escondendo o jogo – Há um mês, ISTOÉ recebeu informação de um ex-funcionário de que um avião da igreja sai uma vez por semana de São Paulo para recolher malas de dinheiro em capitais como Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Goiânia. Mas o informante não forneceu detalhes sobre locais, dias e horários. Outro ex-integrante revelou que Edir Macedo teria dado uma bronca nos parlamentares eleitos pela Universal, em reunião no dia 19 de junho na sede da avenida Suburbana, no Rio, porque eles não estariam repassando recursos que pertenceriam à Universal. Aos gritos, diante de três parlamentares (entre eles João Batista), Macedo teria vociferado: “Tem gente escondendo o jogo. Os cargos públicos são da Universal e tem que dar tudo para a igreja.” Por trás dessa cobrança estaria uma guerra surda entre a cúpula da Universal e o deputado e ex-bispo da Universal Carlos Rodrigues (PL-RJ), envolvido no caso Waldomiro Diniz e acusado por Roberto Jefferson de ser um dos distribuidores do mensalão.

Por outro lado, o deputado João Batista, expulso do PFL na terça-feira 12, não
é um neófito. Ex-presidente da Rede Record, responde a inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) por crimes de falsidade ideológica e contra a ordem
tributária. Após sua eleição, em 2002, seu nome apareceu como sócio da TV Cabrália, da Bahia, o que é vetado pela Constituição e pela Lei Federal 10.610/2002. No inquérito, também consta o bispo e senador Marcelo Crivella (PL-RJ), apontado como sócio-proprietário. Documentos da Receita Federal ainda mostram que, em 1994, o patrimônio do deputado foi “substancialmente aumentado” com a aquisição de cotas da TV Goya, de Goiânia, no valor de 4,9 milhões de Ufirs (hoje, R$ 5,2 milhões). Para a Receita, esse acréscimo foi “acobertado” por empréstimos “não confirmados pelo Banco Central”, vindos das empresas Investholding, das Ilhas Cayman, e Cableinvest, das Ilhas Jersey, que seriam dirigidas, segundo a Procuradoria Geral da República, por Marcelo Crivella. Outra curiosidade: o avião onde estavam os R$ 10 milhões – um Cessna modelo 525 Citation, prefixo PT-MJC – foi adquirido em 1996 por R$ 2,5 milhões (R$ 5,7 milhões em valores atuais) pela Cremo Empreendimentos e pela Rádio Record.