Opinião

Sobrevivemos

Peço permissão aos meus leitores para falar de mim hoje. Estou vivendo um momento novo na vida, como resultado de uma opção profissional radical. Há dois anos troquei a redação, uma função eminentemente de jornalista, para atuar como consultor de comunicação e imprensa.

Inicialmente, após deixar o governo do Estado, onde ocupei por sete meses a função de Secretário Adjunto de Comunicação, parti para uma carreira solo, como free-lance. Atuei em várias campanhas eleitorais e alguns outros trabalhos em regime de job (temporário).

Dessa experiência, e da relação com outros profissionais de áreas distintas, surgiu a idéia de criação de uma empresa, juntamente com o Geraldo Gonçalves e o Maurício Munhoz. Hoje somos sócios da KGM Soluções Institucionais, que existe desde janeiro deste ano.

A mudança é radical porque sair da redação para atuar em assessorias é algo mais ou menos parecido como trocar a promotoria (que tem a função de acusar) para assumir a defesa de um réu.

De certa forma, é assim que os jornalistas de redação vêem qualquer pessoa acusada ou envolvida em algum escândalo: réu, quando não culpado. Eu também pensava assim. Aprender a pensar diferente foi o primeiro desafio. Significou incutir o conceito da presunção de inocência, consagrado na Constituição Brasileira e na maioria dos tratados internacionais de Direitos Humanos, e não apenas considerá-lo retoricamente.

Outro desafio imanente a este foi quebrar os preconceitos, mas mantendo os princípios éticos que me nortearam a vida toda. Novamente, o senso comum não atribui ao defensor nenhuma ética, porque, afinal, ele se dispõe a defender alguém ou algo que, em alguns casos, têm culpa comprovada.

E agora vem a parte mais difícil: como ganhar dinheiro como assessor, sobretudo em um mercado arraigado de preconceitos contra assessores, também com clientes potenciais viciados em métodos pouco ortodoxos?

Quase desisti. Assumir responsabilidades e riscos não é uma tarefa fácil. Sobretudo quando se sabe que as chances de êxito são inferiores às de fracasso.

Felizmente, encontramos clientes abertos ao desafio que nos estabelecemos de tentar algo diferente, partindo do respeito à verdade, do respeito mútuo, da competência e da eficiência, independente de relações familiares e/ou político-partidárias. Logramos bons resultados na maioria dos trabalhos para os quais fomos contratados. Não ganhamos dinheiro. Mas, sobrevivemos do nosso trabalho, com muita dignidade e entusiasmo.

Resolvi escrever este artigo em atenção a vários dos meus amigos e conhecidos, que sempre que vêem me perguntam como está a empresa. A resposta é sempre a mesma: sobrevivemos ao primeiro ano, quando sabemos que as estatísticas são terríveis com os novos negócios, que costumam sucumbir no nascedouro. Mas, posso dizer com segurança que há mercado para consultorias em comunicação em Mato Grosso. A maioria dos jornalistas do Estado, em que pese não dispor de estatística oficial, está empregada hoje em assessorias diversas. Consolidar esse mercado, sem abdicar dos nossos princípios, continua sendo o desafio. A todos que acreditam nisso, meus sinceros agradecimentos.

Kleber Lima é jornalista e Consultor de Comunicação em Cuiabá