Opinião

Religião e embromação

Desde o início da sua gestão, em 2003, o governador Blairo Maggi (PPS) reserva o seu gabinete de trabalho, no Palácio Paiaguás, todas as terças-feiras, para a realização de um culto que ele próprio batizou de “momento de reflexão”. Sempre a partir das 8h, o chefe do Executivo, pelo menos quando não está fora da Capital ou do Estado, participa das orações, por assim dizer, “religiosamente”.

De caráter ecumênico, o culto é celebrado por representantes de diversas religiões. Padres, obreiros, pastores, diáconos (não ouvi falar que algum muçulmano tenha participado dos atos), enfim, se encarregam de levar uma mensagem bíblica para a reflexão do próprio governador, assessores do alto escalão e funcionários menos graduados – que, por sinal, vêem nesse evento também uma rara chance de entrar no cobiçado gabinete governamental.

Para a maioria das pessoas, reservar uma parte do seu tempo diário para reflexão espiritual já faz parte do cotidiano, notadamente no ambiente familiar. Por isso, a maioria dos servidores, como tive a oportunidade de constatar quando trabalhava na Secretaria de Comunicação Social (Secom), acha que é providencial a iniciativa de se promover essa celebração religiosa no local de trabalho.

Não consta que, durante todo esse tempo, o governador tenha se aproveitado dessas ocasiões para discursar, fazer pregações de cunho político, aproveitando a “presença” de Deus no seu gabinete. Até onde sei, o chefe do Palácio Paiaguás nunca confundiu altar com palanque eleitoral. O ritual palaciano é marcado apenas por orações.

Já não se pode dizer o mesmo do prefeito da Capital, Wilson Santos (PSDB). Na tentativa desesperada de importar o “modelo Maggi” de patrocinar “momentos de reflexão”, o alcaide tucano também adotou o culto semanal no Palácio Alencastro. A diferença é que ele costuma trocar rosário pelo microfone, confundir missal com discurso e fazer lavagem cerebral nos pobres fiéis (os servidores) que acorrem, todas as segundas-feiras pela manhã, ao hall de entrada da Prefeitura.

Nesta semana, por mero acaso, tive a oportunidade de constatar que o “tradicional” culto (será ecumênico?) das segundas, no Alencastro, aos poucos, deixa de ser um momento de oração para virar um mero palanque político-eleitoreiro. Na segunda-feira (dia 2), em plena ressaca do Ano Novo, Wilson Santos simplesmente ocupou o lugar do pastor, por um demorado tempo, para fazer uma “prestação de contas”.

Nada contra o prefeito prestar contas, isso é até uma obrigação. Só que, se ele não sabe, há local e hora próprios para esse expediente. Naquela segunda, o prefeito “pregou” para os fiéis o trabalho que realizou em 2005. Citou o nome de Deus dezena de vezes. Afirmou que em todas as suas ações “tem a mão de Deus” e que a mesma mão do Senhor também está nas obras que ele realizou no ano passado. Não se tem notícia, ainda, de que Deus integre o secretariado do nobre prefeito.

Antes de sua infindável pregação, o prefeito comandou uma outra curiosa cerimônia: a entrega simbólica da chave da Cidade a Jesus Cristo – que, ao que consta, não foi receber e nem mandou representante. Há um ano, ele patrocinou o mesmo ato, durante uma “Caminhada com Deus”, da Avenida Mato Grosso até a Praça Alencastro.

Wilson Santos é notório pela ascensão meteórica no mundo político, mas adquiriu fama também pelas atitudes intempestivas e extremamente demagógicas. Todo esse furor religioso exibido na tal caminhada e no culto, na verdade, não passa de uma solene embromação. O prefeito simplesmente envida seus esforços na tentativa de reconstituir parte da base de aliados que ele, aos poucos, vem perdendo entre os religiosos – principalmente evangélicos.

Lamentavelmente, ele se supera no expediente demagógico e na defesa dos seus caprichos meramente eleitoreiros. Peca, também, por insistir em invocar o nome de Deus sempre em vão. Desse jeito, simplesmente não há cristão que agüente. Daqui a pouco, com todo esses fanatismo religioso-eleitoreiro, não será de estranhar se Wilson Santos cismar em ser candidato à sucessão do Papa Bento 16. Ou prometer que Deus cura em suaves prestações e que o Paraíso pode ser financiado pelo Banco do Povo, sem avalista.

* Antonio de Souza, jornalista, é consultor de Comunicação da Oficina do Texto
[email protected]