Opinião

Leitura e cidadania

Há quase uma década, o Ministério da Cultura criou o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler), que, conforme reza o decreto, teria por finalidade articular iniciativas de promoção de leitura. Na prática, o programa deveria articular e promover ações que despertassem o interesse nacional pela leitura, assim como conscientizasse sobre a importância de sua democratização junto à população excluída das oportunidades de acesso à leitura.
No contexto geral, o Proler foi criado com o fim de incentivar o desenvolvimento de práticas de leitura, priorizando a esfera pública a fim de contribuir para a sua democratização, despertando e atendendo aos interesses da maioria da população leitora e não-leitora. E esse acesso deveria ser viabilizado com a disponibilidade de material de leitura variado e de qualidade em bibliotecas escolares e públicas, salas de aula, salas de leitura em locais públicos etc.
Como tantas outras medidas governamentais, principalmente na área cultural, nesta, a distância entre a teoria e prática é infinitamente grande. O tal Proler, como outras medidas do gênero, nunca saiu do papel, tanto no Governo anterior, que o criou, como no atual, cujo chefe parece se sentir estigmatizado pela condição de semi-analfabeto. Quando nada, completamente alheio a um assunto com o qual não tem nenhuma afinidade, ou que simplesmente não domina.
O tal decreto já começou mal por não colocar em prática algumas de suas principais vertentes, quais sejam: formar mediadores de leitura e articular práticas leitoras que despertem a necessidade de ler nos cidadãos; promover ações estratégicas de articulação e valorizar o lugar político da leitura; produzir, valorizar e estimular a criação de bibliotecas públicas; e divulgar informações sobre o tema leitura em Rede de Informações.
Não há dúvida de que a leitura é tudo na vida de uma pessoa. Na maioria das vezes, um programa dessa natureza, se levado a sério, poderia contribuir para impulsionar a curiosidade e a conseqüente prática do saudável exercício da literatura. Infelizmente, é o tipo de medida cuja seriedade se esgota no exato momento em que terminam os discursos elaborados e lidos pela ótica eleitoreira.
 
Recentemente, o Governo de Mato Grosso deu um passo extremamente significativo no sentido de fomentar a leitura, tornando o acesso ao livro, por assim dizer, mais democrático, apoiando a criação e a produção literárias, com a realização da Literamérica 2005. O evento, realizado em setembro passado, como se recorda, foi coroado de êxito, pela presença maciça dos maiores expoentes da literatura sul-americana e de outros continentes, bem como pelo estímulo que proporcionou, principalmente em crianças e adolescentes, para a prática do saudável exercício da leitura.
 
O secretário de Cultura do Estado, João Carlos Vicente Ferreira, demonstra uma disposição ímpar para cuidar dos projetos que visam ao fomento da cultura em geral e, especialmente, dessa proposta de se incentivar a leitura em todas as camadas sociais. Infelizmente, pelo que se nota, ações nesse sentido dificilmente saem do papel. Por má vontade ou mera omissão do Poder central. Ou de outros setores, cujos interesses imediatos e inconfessáveis impedem a execução de projetos de caráter social.
 
Em meio a tanto desleixo, irresponsabilidade e ignorância, chama a atenção o fato de, justamente da Assembléia Legislativa, onde alguns dos seus integrantes são notórios pela leitura apenas daquilo que satisfaz aos seus interesses pessoais, sai uma proposta decente. Trata-se do projeto de autoria do deputado José Riva (PP), que estabelece que Mato Grosso terá um mês inteiro para a disseminação da leitura. O mês escolhido é abril, no qual se comemoram o Dia Internacional do Livro Infantil (2) e o Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor (3).
 
O deputado sugere que todos os dias desse mês sejam aproveitados para “se viajar através das letras”, com a realização de oficinas de leitura em todas as escolas, num processo que pode ser tachado de revolucionário, até porque não se tem conhecimento de idéia semelhante.
Para o primeiro-secretário da Assembléia, não basta que se entreguem livros às bibliotecas, há que se levar os livros às pessoas, sobretudo crianças e adolescentes, para que estes desenvolvam um hábito saudável que os acompanhará por toda a vida. Ele reconhece que o esforço inicial é grande e que os resultados não surgem repentinamente. É um longo processo que apresentará resultados modestos em curto prazo, uma vez que se trata da modificação de um hábito, e não se mudam hábitos de uma hora para outra. 
De qualquer forma, não se pode negar que o deputado do PP, que sempre se destacou pela extrema habilidade como articulador político, dá uma demonstração de sensibilidade com a questão social e com a necessidade se promover a inclusão social. Afinal, a leitura atua de maneira positiva em vários aspectos no que se refere ao jovem: enriquece seu vocabulário, insere-o no contexto nacional e mundial, ajuda a desenvolver o espírito crítico, proporciona-lhe momentos de lazer e auxilia na consolidação de sua cidadania. 
O projeto de José Riva é muito mais do que uma dessas muitas proposições que se amontoam nos arquivos do Legislativo e para as quais o Executivo não dá a mínima. É o tipo de matéria que deveria ser avalizada pelos outros 23 parlamentares e que o Governo do Estado deve levar em conta como algo extremamente sério.
 
Antonio de Souza jornalista, é consultor de Comunicação da Oficina do Texto – Marketing e Assessoria de Imprensa, em Cuiabá.
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