quarta-feira, 28/fevereiro/2024
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Enem: uma reflexão necessária e oportuna sobre o método classificatório do exame

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Sempre que sai o resultado da prova do Enem há um alvoroço geral. Assim foi nas edições anteriores do exame e não seria diferente em 2008 quando saiu a classificação por região e estados, nem na última semana com o “ranking” por escola. Afinal é uma avaliação, e, na memória coletiva de cada um de nós, está posto o mensurar e o classificar, que, nesta perspectiva, tem como único objetivo aferir o quanto de uma gama de conteúdos previamente estabelecidos foi incorporado ao conhecimento do educando e que, no caso do Enem, classificar o “quanto” que o educando egresso do Ensino Médio, última etapa da educação básica, foi capaz de adquirir ao término do curso.

Critérios que contemplem a natureza do sujeito/objeto aqui avaliado bem como o espaço em que se processa a atividade de ensino/aprendizagem não são considerados, quando os resultados divulgados apontam simplesmente uma escala decrescente de classificação.

Não pretendemos defender que deva haver uma avaliação para os educandos da escola pública e outra para os da escola privada. No primeiro caso trabalhamos com um universo de 140 mil educandos que em sua maioria dependem da escola, para eles o único espaço de acesso a bens culturais. Boa parte destes já exercem alguma atividade remunerada, muitas vezes em ocupações economicamente precarizadas, por imposição das necessidades de sobrevivência da família. Também engrossavam até bem pouco tempo, a maioria dos excluídos da escola, antes mesmo de concluírem o Ensino Fundamental.

No caso da escola privada falamos de um universo de 10 mil educandos, com acesso desde o nascimento a bens culturais, aulas extras de reforço, curso especial de língua estrangeira, aulas de artes marciais, dança etc, além de não precisarem preocuparem-se com o sustento próprio ou da família.

Na mesma categorização classificatória, provavelmente puxando o índice para baixo não por sua natureza, mas, por sua especificidade, estão as escolas indígenas com questões culturais e linguísticas que envolvem intensa complexidade, com a língua portuguesa como língua estrangeira, na qual o jovem terá de ler para responder as questões propostas e fazer a redação.

Do mesmo modo não poderíamos deixar de falar da Educação de Jovens e Adultos que tem, em sua maioria, pais trabalhadores que buscam novas possibilidades com a educação. Sem desmerecimento da tradição e qualidade das escolas federais, não poderíamos, contudo, deixar de registrar que o jovem que nelas ingressam o fazem após submeterem-se a uma seleção.

Nesses casos, a opção ideal seria uma pesquisa por amostragem em que se levantam dados sobre a formação educacional em geral, mas também sobre as características socioeconômicas e culturais do grupo familiar, pois elas permitem que se analisem as relações sobre as habilidades e práticas sociais de leitura e escrita e outros fatores, tais como idade, sexo, renda, residência rural/urbana, meio rural e região (United Nations, 1989).

Com isso, não queremos negar o resultado que o Enem apresenta, nem tampouco nos eximir da obrigação de pensar em ações para esse nível de ensino, pelo contrário, devemos implementá-las no sentido de reverter as desigualdades que se apresentam. Os resultados mostram que numa escala de 0 a 100, há uma diferença de menos de 10 pontos entre os estados da federação, portanto os resultados em nível nacional não são os desejáveis por todos nós.

Foram esses resultados do Enem, que também nos permitiram observar que, nos três últimos anos, a rede estadual de MT está progressivamente melhorando seus índices.

No entanto, se entendemos a avaliação como um processo que nos permite não somente mensurar, mas também diagnosticar como se encontra a educação, até onde os objetivos propostos foram alcançados, teremos que ampliar o foco meramente classificatório da avaliação para também considerá-lo como indicativo de ajustes ou mudanças das políticas públicas com o objetivo de atingir melhores e mais adequados níveis de aprendizagem para o ensino médio.

Preocupado em melhorar a qualidade da educação formal oferecida aos jovens, o governo de Mato Grosso, por meio da Seduc, está implementando diversas ações, como a ampliação do investimento em formação continuada e em infra-estrutura; valorização profissional; reordenamento da rede para funcionamento de escolas exclusivas de Ensino Médio, garantindo a identidade das escolas e formação continuado específica para esses profissionais; implantação do Ensino Médio Integrado (formação geral e formação profissional juntas); construção das Orientações Curriculares para a Educação Básica, parceria com a UFMT e Unemat para formação inicial nas áreas em que ainda há demanda; formação dos gestores das escolas; ampliação do quadro de profissionais nos Cefapros para atendimento ao Ensino Médio, entre outras ações.

Estamos otimistas que essas ações vão trazer resultados positivos para os nossos jovens mato-grossenses que lutam, creem e se esforçam por dias melhores, e, se o ideal ainda não foi alcançado, continuaremos em busca de novos caminhos, afinal, eles, sujeitos de direito, merecem um olhar avaliativo menos comparativo e socialmente não discriminatório, mas um olhar que perceba o seu potencial enquanto sujeito sócio-político cultural.

Ema Marta Dunck Cintra é coordenadora do Ensino Médio/Seduc-MT

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