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É tempo de votar

Wilson Carlos Fuáh Escritor, radialista, cronista e observador atento da vida política e social de Mato Grosso, é graduado em Ciências Econômica - [email protected]
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É TEMPO DE VOTAR

A política está presente em praticamente tudo o que envolve a vida em sociedade. Está nas decisões sobre saúde, educação, segurança, infraestrutura, transporte, emprego e qualidade de vida. Ainda assim, uma parcela significativa dos eleitores só se lembra da política quando as eleições se aproximam.

É nesse período que surgem os discursos inflamados, os apertos de mão, os abraços, as promessas e as fotografias ao lado do povo. O candidato aparece onde antes quase nunca era visto e, de repente, todos parecem descobrir uma preocupação extraordinária com os problemas da população.

Mas a pergunta que deveria estar no centro do debate é simples:

Para quem irá o seu voto?

Escolher um representante não deveria ser um ato de simpatia, amizade, parentesco, emoção ou troca de favores. O voto é uma decisão que interfere diretamente na vida coletiva e, por isso, exige memória, informação e responsabilidade.

O eleitor precisa olhar para além da propaganda eleitoral.

Precisa perguntar quem é o candidato, o que fez antes de pedir o voto, quais são suas experiências, quais compromissos assumiu e, principalmente, se existe coerência entre aquilo que fala e aquilo que pratica.

A política brasileira já demonstrou inúmeras vezes que quantidade não significa qualidade. Ter muitos seguidores, aparecer constantemente nas redes sociais ou reunir grandes grupos em eventos não é, por si só, demonstração de capacidade para administrar o interesse público.

Também não basta colocar o nome na urna e declarar-se político.

A política exige preparo para compreender problemas complexos, capacidade de ouvir a sociedade e disposição para tomar decisões que nem sempre agradarão a todos.

Há candidatos que conhecem profundamente a arte de fazer campanha, mas pouco conhecem a realidade da administração pública. Sabem pedir votos, mas não necessariamente sabem explicar como transformar promessas em políticas públicas.

E essa diferença precisa ser percebida pelo eleitor.

Outro problema é a transformação da política em uma espécie de mercado de interesses. Quando o voto passa a ser tratado como moeda de troca, perde-se uma das principais características da democracia: a possibilidade de escolher representantes a partir de convicções e propostas.

O eleitor não deveria vender sua consciência por uma vantagem momentânea. Da mesma forma, o político não deveria enxergar o eleitor apenas como um número necessário para alcançar o poder. Existe uma relação de responsabilidade entre os dois. O candidato pede confiança. O eleitor entrega o voto. Depois disso, começa a verdadeira avaliação: o mandato.

É justamente aí que a política deixa de ser discurso e passa a ser realidade. Uma placa inaugurando uma obra não é necessariamente sinônimo de eficiência. Uma fotografia diante de uma construção pública não garante que aquela obra tenha qualidade. Um anúncio nas redes sociais não comprova que determinado problema tenha sido resolvido.

O que importa é o resultado entregue à população. E é preciso reconhecer que existe uma diferença enorme entre fazer política para administrar o interesse público e fazer política para construir uma carreira pessoal. O primeiro olha para a sociedade. O segundo pode acabar olhando para si mesmo.

O verdadeiro exercício da política exige humildade para reconhecer erros, disposição para ouvir críticas e coragem para enfrentar problemas que não aparecem nas fotografias das campanhas. Também exige algo que parece cada vez mais raro: pensar no coletivo.

Até dentro das famílias esse espírito parece ter perdido espaço. As pessoas vivem na mesma casa, mas muitas vezes em mundos diferentes, cada uma diante de sua própria tela. A antiga reunião em torno da mesa, a conversa demorada e a convivência cotidiana foram sendo substituídas por relações cada vez mais individualizadas.

Se o sentido coletivo desaparece dentro de casa, como esperar que ele sobreviva plenamente na sociedade? Talvez seja por isso que a política precise ser compreendida não apenas como disputa pelo poder, mas como exercício permanente de responsabilidade.

O político verdadeiramente comprometido com a sociedade não deveria enxergar o mandato como ponto de chegada. Deveria enxergá-lo como começo de uma obrigação ainda maior. Porque as necessidades da população nunca terminam.

Resolve-se um problema e aparece outro. Constrói-se uma escola e surge a necessidade de melhorar a educação. Pavimenta-se uma rua e permanecem os desafios do saneamento, da mobilidade e da segurança. A administração pública é uma obra permanentemente inacabada.

Por isso, o político que acredita ter feito tudo provavelmente ainda não compreendeu a dimensão da responsabilidade que assumiu.

Antes de votar, talvez seja necessário fazer algumas perguntas. Esse candidato conhece a realidade das pessoas que pretende representar ? Tem uma trajetória que sustente o discurso que apresenta? Sabe ouvir críticas ou somente aceita elogios? Consegue colocar o interesse público acima de seus interesses pessoais? Já demonstrou, na prática, capacidade de trabalhar pelo coletivo? Suas promessas encontram correspondência em sua história?

Essas perguntas são mais importantes do que um slogan de campanha. Mais importantes do que uma fotografia. Mais importantes do que um discurso bem produzido. E existe uma regra simples que o eleitor não deveria esquecer: o passado também é uma forma de apresentação de um candidato.

Quem já exerceu função pública deve ser observado pelo que realizou, pelo que deixou de realizar e pelas decisões que tomou. Quem nunca exerceu mandato também pode ser avaliado por sua trajetória profissional, social e comunitária. A história de uma pessoa não começa no primeiro dia da campanha eleitoral.

Ela já estava sendo escrita muito antes. Por isso, quando encontrar um candidato que demonstre preocupação verdadeira com os problemas da sociedade, capacidade de ouvir, disposição para enfrentar dificuldades, humildade para reconhecer erros e coerência entre discurso e prática, o eleitor terá elementos concretos para fazer sua escolha.

No final, porém, a decisão pertence ao eleitor. Porque o voto não é propriedade do candidato. É patrimônio da cidadania. E talvez a pergunta mais importante desta eleição não seja apenas: “Em quem você vai votar?” Mas sim: “Por que você vai votar nele?”

A resposta a essa pergunta pode revelar muito mais sobre a qualidade de uma eleição do que qualquer pesquisa, propaganda ou discurso de campanha.

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