Opinião

E por falar em saudade

Sei lá… pode ser preconceito, mas as letras e músicas de hoje são, em sua esmagadora maioria, paupérrimas.E como as rádios insistem em tocar músicas que enaltecem o pacto com a mediocridade, ficando difícil para as novas gerações conhecerem um pouco da boa e verdadeira Música Popular Brasileira.

Escolhi Vinicius de Moraes para tentar mostrar um pouco da qualidade da MPB. Nascido em 1913, no Rio de Janeiro, Vinicius foi, antes de qualquer coisa, um apaixonado pelas mulheres e pela vida. Boêmio, mas sem se perder nos laços da fantasia e da alienação. Diplomata por necessidade; músico e poeta por vocação. Depois de muitas peripécias, deixou-nos em 9 de julho de 1980.

A sua produção musical e literária pode ser dividida em três fases distintas: a fase marcada pela forte influência católica. Outra onde o amor carnal deixa de ser um pecado. E a fase social em que os dramas da humanidade e, em especial, do Brasil vão ser desnudados pelo “poetinha”. Aliás, em 1979, a convite do, então, metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva, Vinicius vai ao sindicato fazer leitura de poemas para os trabalhadores do ABC paulista. Imaginem se ele estivesse vivo hoje e perguntasse ao “sapo barbudo”: – Você se esqueceu do “Operário em Construção”? Então vou repetir um pedaço: “ De forma que, certo dia / À mesa, ao cortar o pão / o operário foi tomado / De uma súbita emoção / Ao constatar assombrado / que naquela mesa / – Garrafa, prato, facão – / era ele quem os fazia / Ele, um humilde operário, / Um operário em construção.”

Mas não quero falar dos poemas e sim das músicas. Ah se você pudesse ouvir “Um homem chamado Alfredo” para sentir toda a intensidade da solidão entre as pessoas:”O meu vizinho do lado / Se matou de solidão /(…)/ Porque ninguém o queria / ninguém lhe dava atenção / Ninguém lhe abria / As portas do coração”. E você me dirá: – nunca ouvi. Eu sei, eles não tocam mesmo; portanto você não tem culpa.

Houve um tempo em que fazíamos serenatas. Cuiabá ainda não se verticalizara e nem fora tomada pelo medo. Andávamos por suas ruelas estreitas como se estivéssemos dentro de nossas casas. Procurávamos pelos mais apaixonados e, conseqüentemente, mais destemidos para, ao pé de uma janela, entoar canções que falassem de amor. Quantas senhoritas não foram despertadas com “Eu sei que vou te amar, / Por toda minha vida, Eu vou te amar / E cada despedida / Eu sei que vou te amar / E cada verso meu / Será pra te dizer / Que eu sei que vou te amar / Por toda minha vida.” Quase que invariavelmente, éramos recebidos pelos pais da moça com olhos sonolentos e almas repletas de satisfação.

Às vezes, quando um de nós era preterido por uma beldade, não havia melhor remédio e dá-lhe Vinicius: “Tomara / Que você volte depressa / Que você não se despeça / nunca mais dos meus carinhos / E chore, se arrependa / E pense muito / Que é melhor sofrer junto / Do que viver feliz sozinho.” O tempo passou, as novas gerações continuam se apaixonando; todavia falam e fazem um amor mais pobre, com menos poesia. Por ignorar, não podem sussurrar “E por falar em saudade onde anda você /onde andam esses olhos que a gente não vê / onde anda esse corpo / que me deixou louco de tanto prazer.”

Sérgio Cintra é professor e Diretor Técnico e Científico da Funec.