Opinião

Cigarros eletrônicos são um atentado à saúde

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, tomou uma medida acertada quando decidiu manter a proibição da venda, importação e propaganda dos dispositivos eletrônicos para fumar (DEFS), conhecidos popularmente como cigarros eletrônicos. A proibição existe desde agosto de 2009 no país, mas em reanálise nesta semana, o órgão nacional optou, por unanimidade, manter a vedação. Isso significa que todo cigarro eletrônico vendido no Brasil é ilegal e não passa por nenhum teste de qualidade, o que impossibilita verificar a segurança para uso.

Hoje em média 650 mil pessoas no Brasil consomem esses dispositivos, sendo a maioria jovens. As pessoas por vezes acham que não faz mal, se comparado ao cigarro tradicional. A forma mudou, mas os problemas continuam graves. Os cigarros eletrônicos são tão prejudiciais quanto as versões tradicionais. Eles também contêm altos índices de nicotina, além de uma série de outras substâncias maléficas, que quando inaladas, causam graves problemas pulmonares.

A tragada do cigarro eletrônico tem uma maior duração. Estudos já mostraram que as partículas finas contidas nos dispositivos podem alcançar as estruturas mais profundas dos pulmões, caindo na circulação sistêmica, aumentando o risco de doenças respiratórias, cardiovasculares e levando até mesmo à morte.

Enquanto o cigarro tradicional pode levar de 20 a 30 anos para apresentar problemas no pulmão, as consequências danosas do uso de dispositivos eletrônicos para fumar aparecem de forma mais célere. Para descrever os problemas causados pelo hábito, os Estados Unidos criaram a sigla Evali, que na tradução para o português significa Danos Pulmonares Associados ao Cigarro Eletrônico. A doença acometeu 2.800 pessoas nos Estados Unidos em 2020, a maioria abaixo de 24 anos e até o momento já causou a morte de 69.

A Evali causa falta de ar, tosse e expectoração sanguinolenta. Isso é muito grave e precisamos alertar principalmente jovens e seus pais de que o cigarro eletrônico é tão grave e prejudicial quanto o cigarro tradicional, podendo causar ainda câncer, levar ao infarto, acidente vascular cerebral e muito mais. Na verdade, ainda não se sabe ao certo a extensão do estrago que esse novo hábito pode provocar. Mas, definitivamente, o consumo não é algo tranquilo, como a indústria quer que você acredite.

Apesar da fumaça com cheiro agradável e o uso de essências que tornam o consumo prazeroso, existe um outro risco por trás dos dispositivos. Eles podem explodir, causando danos físicos e materiais às vítimas, isso porque muitos dos cigarros eletrônicos são compostos por baterias.  Também é uma inverdade que ajuda as pessoas a parar de fumar.

Já existem estudos que demonstram que jovens que usam cigarros eletrônicos são menos propensos a parar de fumar e que adultos desenvolvem alta tendência de fazer dupla utilização, ou seja, além do dispositivo consomem também o tradicional, aumentando as chances de desenvolverem problemas de saúde. Assim como a fumaça do cigarro manufaturado é prejudicial ao fumante passivo – aquele que não fuma, mas inala por estar perto de alguém fumante – a fumaça produzida pelo cigarro eletrônico tem a mesma capacidade de atingir quem está por perto.

Gente, é preciso alertar, principalmente os jovens, sobre os perigos desse consumo desenfreado e sem nenhuma fiscalização. Além disso, é necessário um forte trabalho de repressão por parte das forças de segurança, afinal tudo que é comercializado no Brasil é ilegal. E nunca é demais ressaltar, cuidar da saúde é amar a vida.

Natasha Slhessarenko é médica pediatra e patologista clínica e tem atuado fortemente contra a desinformação