Opinião

Aparelhamento Político: uma forma de continuar podendo?

Quando Humberto Gessinger, compositor e vocalista da banda Engenheiros do Havaí escreveu a música “Toda a forma de poder”, o povo brasileiro estava fugindo aos olhos da “super-visão” do regime militar ditatorial (e toda sua forma de censura) e iniciando uma escalada íngreme, mas contínua à tão sonhada democracia, uma forma de governo que, a princípio, parte da vontade da maioria da população.

O movimento do rock nacional chegava definitivamente a incorporar-se à música popular brasileira, ganhando características culturais tupiniquins e apelidado de BRock. Nos anos 80 surgiram das garagens, bandas como a Blitz, Barão Vermelho, Titãs, Paralamas do Sucesso, Engenheiros, Ultrage a Rigor… Um período de muita criticidade nas universidades, na mídia, nas ruas (…) e também na música brasileira que além de letras com conteúdo crítico era permeada de muita alegria e celebração com a diminuição acentuada da repressão militar verificada nas duas décadas anteriores.

Na canção “Toda a forma de poder”, Humberto berra aos quatro cantos que “Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada” mas, diferentemente da maioria dos críticos ao regime militar que associavam “ditadura” somente aos segmentos políticos de direita, como era o caso do Brasil dos militares, o autor/compositor aponta a metralhadora para leste e oeste e esquerda e direita e brada que “Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada”. Noutra canção, “A revolta dos Dândis II”, ironiza: “Esquerda & direita, direitos & deveres, os 3 patetas, os 3 poderes…”.

Claro que a distância entre Fidel e Pinochet só pode ser medida em anos-luz, e esquerda e direita são concepções políticas tão antagônicas quanto sal e açúcar (ou não! como diria Caetano). Mas, guardados os temperos e devidas proporções, em ambas canções, fica muito evidente a tese do poder como um fenômeno que pode corromper o humano na capacidade de respeitar o outro. Porque o poder – especialmente o político – é a negação dos mesmos direitos ao outro, que está fora da esfera de poder. O verbo partilhar, quando se trata de poder, logo é substituído pelo hierarquizar, para facilitar o controle.

E quando se trata de sustentar o tão famigerado poder político, não importa a ideologia, os governos são construídos e consolidados a partir de um aparelhamento político que garanta a estrutura de poder na mesma proporção em que murcham os ideais de mudar o mundo pra melhor. Isso se verifica em muitos governos e está acontecendo no tão aguardado governo Luís Inácio, o Lula das reivindicações nas portas das fábricas. O mesmo Luís Inácio que cobrava “atitude” do congresso e por isso foi tema da música composta por Herbert Viana: “Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou / são trezentos picaretas com anel de doutor”.

De forma inversa ao que pode estar imaginando um dos arquitetos do poder político do governo – Zé Dirceu (que negou Valdomiro) – aparelhar, para garantir a continuidade no poder pode estar significando o fim de um sonho de mudança. Um sonho que previa uma transformação nos conceitos de fazer política, sem ter que comprar deputados (com ou sem anéis de doutor) para garantir votos no congresso e sem ter que usar a máquina pública para buscar reeleger os aliados, que nem se sabe ao certo quem são.

O perigo iminente é de que esse fisiologismo, numa relação de poder que não se difere de nenhuma outra que se conhece, possa se tornar no único jeito de administrar do PT. Mas o partido que aparelha não pode ser o PT do Luís Inácio. O PT que aparelha é uma vergonha para os petistas que têm sua conduta pautada aos princípios estatutários. É um PT proposto pelos Zés (Dirceu e Genoíno) que satisfaz ao Zé (ex-presidente) Sarney, idealizador do “tudo pelo social”. Ou seria “pêlo do Zé Povão” – com inflação a oitenta por mês (algum sentimento de nostalgia ao governo Sarney e seus planos econômicos infalíveis?).

Não que eu queira cobrar coerência métrica do presidente Lula e seu time, tampouco do PT, pois temos que aprender a viver com nossas contradições. Mas o difícil é (“até para Zagalo” – 13 letras) engolir a forma mais mesquinha de manutenção no poder: o aparelhamento político – colocando parceiros às vezes despreparados, mas submissos, para “super-visionar” as políticas “públicas” propostas pelo governo.

Um amigo, defensor da forma “aparelhamentalista” (verbete novo?) de governar, me disse que “não se pode colocar as raposas para cuidar dos galinheiros”, mas quando nos deparamos com a corrupção rondando o PT e seus aliados: quem chamar de raposas? Afinal, falar em pureza do partido (que um dia foi dos operários) nos dias de hoje é fechar os olhos para a realidade dos governos petistas que não se diferem de nenhum outro. A “marca” petista de administrar pode virar uma grande “logopiada” inventada pelo seu marqueteiro-mor: Duda Mendonça (ex-Maluf, mas hoje 13, da luta… de galos!).

O poder que o Brasil delegou ao PT pode se constituir numa forma do próprio PT sucumbir sem princípios, sem aproveitar a chance de fazer diferente e mostrar um novo jeito de fazer e viver política. Uma política de verdade, não de verdades “genuinamente” arquitetadas. Se isto é impossível, utópico; acredito que a maioria dos que votaram em Luís Inácio Lula da Silva prefere continuar ingênuos, mas contestadores e sonhadores como os precursores do BRock das garagens e o sindicalismo de porta de fábrica.

Torcemos, para que ao final deste governo, os sonhos do menino pobre de Pernambuco, que hoje ostenta com orgulho sua coleção de gravatas vermelhas, possam se constituir na realidade de um país com menos fome e melhor distribuição de riquezas, para que ao fim do mandato, não reste somente a pergunta, que viria em forma de versos, nas letras do Humberto, Herbert ou outro poeta: o poder sem pudor terá valido a pena?

João Batista Lopes da Silva
Professor na Universidade do Estado de Mato Grosso
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