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Vôo 1907: familiares questionam Aeronáutica sobre desligamento de transponder

Familiares das vítimas do vôo 1907 da Gol questionaram a nota divulgada pela Aeronáutica, na segunda-feira, que exclui a possibilidade de desligamento intencional do transponder por parte dos pilotos Joseph Lepore e Jan Paladino.

“A informação de que eles não poderiam ter desligado inadvertidamente o transponder com os pés, laptop ou de outra forma, nós já sabíamos, mas é inadmissível a posição da Aeronáutica em afirmar que não há indícios de um desligamento intencional sendo conhecedores de todo diálogo deles durante a viagem”, diz Angelita De Marchi, presidente da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo 1907.

Rosane Gujthar, viúva de Rolf Gujthar, comenta que a Aeronáutica não pode excluir a possibilidade do desligamento intencional do transponder, visto que os próprios comentários dos pilotos, gravados pela caixa-preta, destacam a imprudência, a negligência e a imperícia deles com os equipamentos como, por exemplo, quando um deles, às 18:41:14.9 UTC (Tempo Universal Coodernado), diz: “Ainda trabalhando os problemas de como mexer nesta coisa. Este FMS”. E o outro responde às 18:42:05.3: “Não se preocupe com isso”.

FMS (Flight Management System) é o Sistema de Gerenciamento de Vôo, responsável por várias funções da aeronave, como planejamento de vôo, navegação, cálculo de performance, consumo de combustível, etc. “Não se pode alegar que eles não desligaram intencionalmente o transponder, pois eles assumiram o risco de pilotar uma aeronave que desconheciam, até mesmo o FMS”, comenta Rosane.

Rosane ainda questiona outras falas dos pilotos norte-americanos, como “eu tenho que ler o livro”, “eu esqueci de fazer isso”, “eu nem sei como chamar esses caras”, “eu não sei o que TX trinta e cinco significa”, “Ah, eu fiz? Me desculpe. Eu nem chequei”, “Você sabe como era isso? Como se converte em metros”, “temos que achar o livro para esta coisa e… começar a lê-lo, você sabe”. Mas a parte que mais compromete os pilotos, segundo Rosane, é a conversa entre eles às 19:12:55.0: “Quer desligar isso ou deixar ligado?”, pergunta respondida às 19:12:55.3 com a afirmação “Uuuh, pode desligar eu acho”.

“Então, com tudo isso, queremos saber qual ou quais outros aparelhos, do Legacy, estavam desligados, além do transponder e do TCAS, que temos conhecimento pelas investigações”, diz Rosane. “Depois de tudo isso, como a Aeronáutica pode alegar que não há indícios de um desligamento intencional? Só por eles decidirem pilotar uma aeronave sem conhecê-la, seus equipamentos e manuais internacionais, já é um indício de que sabiam que podiam colocar as vidas dos tripulantes da sua aeronave e outras vidas em risco”, argumenta.

Depois do acidente, que ocorreu às 19h56min54s UTC, segue-se uma conversa entre os tripulantes, enquanto tentavam contato com a Torre de Brasília. Os pilotos norte-americanos passam a buscar pelo aeroporto mais próximo, e o piloto, Joseph Lepore, assume que estava com o TCAS (equipamento anti-colisão) desligado. 19h59:13:5 “Cara, você está com o TCAS ligado? O outro responde: 19:59:15:9 “É, o TCAS está desligado”.

“O mais curioso é que, minutos depois da batida, às 19h57min50s, o transponder do Legacy voltou a aparecer no radar secundário do ACC-Amazônico, totalmente identificado, com velocidade, nível e dados da aeronave”, diz Rosane.

O comandante George William Araripe Sucupira, presidente da Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves – APPA, destaca que “seria praticamente impossível” o desligamento involuntário do sistema transponder/TCAS. “Não há possibilidade de um transponder ser desligado sem a interferência do piloto. Como é que eu vou desligar o transponder se eu não mexi no botão. Só posso desligar se eu mudar de posição. Então, o transponder, seja pressionando o botão, seja girando o botão, ele só pode ser desacionado voluntariamente pelo piloto. O transponder dos aviões modernos é acoplado a um TCAS. O TCAS é um instrumento bem básico. Não existe essa hipótese. Não há como desligar acidentalmente o transponder”, destaca.

Angelita De Marchi afirma que as famílias estão angustiadas pela falta de respostas. “A cada hora nos surpreendemos com uma análise nova ou um novo comentário sobre o acidente. Estamos cansados de não ter uma resposta clara sobre o que aconteceu no dia do acidente e quem são os responsáveis. Não podemos tocar nossas vidas enquanto isso tudo não acabar”, diz.

Os familiares das vítimas aguardam, ainda, o relatório oficial da Aeronáutica, como também a decisão sobre o conflito positivo de competência, que está no Superior Tribunal de Justiça, com o relator Ministro Paulo Gallotti, além de uma resposta do ministro Nelson Jobim (Justiça) ao pedido de audiência com os familiares, feito no dia 19 de novembro.