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Raoni segue na UTI em Sinop e médicos destacam quadro delicado, mas estável

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Só Notícias/Wellinton Cunha (foto: assessoria/arquivo)

O cacique Raoni Metuktire, uma das mais importantes lideranças indígenas do país, permanece internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em um hospital particular de Sinop, após ser transferido de avião de Peixoto de Azevedo no último domingo (14). De acordo com a médica Anna Letícia Yanai, Raoni chegou ao hospital após apresentar episódios persistentes de vômito, iniciados no sábado. O quadro evoluiu com ausência de urina, distensão abdominal e dores na região do abdômen, o que levou à decisão de encaminhá-lo para uma nova avaliação especializada. Desde então, ele permanece internado na UTI sob monitoramento contínuo.

A médica destacou que, apesar da internação em terapia intensiva, o cacique está “lúcido, conversa com familiares e profissionais de saúde e permanece acompanhado por pessoas próximas”. Segundo ela, o atendimento ocorre de forma integrada entre a equipe do hospital, especialistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e lideranças indígenas, que participam diariamente das discussões sobre o tratamento por meio de videoconferências.

O médico Douglas Yanai explicou que Raoni foi internado com um quadro de suboclusão gástrica, condição que dificulta a passagem dos alimentos pelo sistema digestivo e foi responsável pelos episódios intensos de vômito. Por esse motivo, ele permanece em jejum para permitir o esvaziamento do estômago e a recuperação do trânsito gastrointestinal. Segundo o médico, a dificuldade para eliminar o conteúdo gástrico também provocou uma importante desidratação e afetou temporariamente a função renal do paciente. No entanto, os exames realizados nas últimas horas apontaram melhora significativa dos indicadores renais.

Douglas explicou ainda que uma das preocupações iniciais da equipe era o risco de aspiração do vômito para os pulmões, situação que poderia provocar pneumonia e exigir procedimentos mais invasivos. A possibilidade de intubação chegou a ser considerada devido aos vômitos frequentes e em grande quantidade. Entretanto, após a passagem de uma sonda nasogástrica para drenagem do conteúdo do estômago, houve melhora do quadro, afastando a necessidade do procedimento. “Ele não está entubado e não existe planejamento para intubação neste momento, porque está respirando bem”, afirmou.

Os profissionais ressaltaram que a idade avançada e as doenças crônicas de Raoni exigem atenção redobrada. O líder indígena possui doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), insuficiência cardíaca e utiliza marca-passo em razão de fibrilação atrial. Para Douglas, essas condições tornam o organismo mais vulnerável a intercorrências e contribuem para as recorrentes internações registradas nos últimos anos.

Mesmo diante dessas limitações, o médico destacou a capacidade de recuperação demonstrada pelo cacique ao longo do acompanhamento realizado pela equipe desde 2020. “Ele é um homem muito forte. Nós conhecemos a força e a capacidade dele. Mas também precisamos lembrar que estamos falando de uma pessoa com mais de 94 anos e saúde mais frágil, o que exige muito cuidado”, observou.

O plano terapêutico atual prevê a continuidade do tratamento clínico e da observação intensiva. A expectativa é estabilizar completamente a suboclusão gástrica para que, posteriormente, seja realizada uma endoscopia e, gradualmente, retomada a nutrição via tubos. Embora uma cirurgia possa ser considerada em situações extremas, os médicos afirmam que essa hipótese não está indicada neste momento. De acordo com Douglas, qualquer procedimento cirúrgico representa risco elevado em razão da idade e das comorbidades do paciente, motivo pelo qual a equipe prioriza a recuperação clínica.

Cacique Raoni

Raoni nasceu por volta de 1932, na região do Xingu, nordeste de Mato Grosso, pertence ao povo Kayapó, da etnia Mebêngôkre. Desde jovem, tornou-se reconhecido pela habilidade de liderança e pela atuação em defesa das tradições culturais indígenas. O cacique ganhou projeção nacional e internacional a partir da década de 1970, durante o avanço da ocupação econômica sobre a Amazônia e os conflitos envolvendo terras indígenas.

Sua imagem, marcada pelo tradicional botoque labial, tornou-se conhecida mundialmente após participar de campanhas pela preservação ambiental e pelos direitos dos povos indígenas e do lançamento do filme “Raoni”, em 1978, dirigido pelo cineasta belga Jean-Pierre Dutilleux e pelo brasileiro Luiz Carlos Saldanha, A versão internacional teve narração do ator Marlon Brando e o longa foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário. Em 1989, o cacique percorreu diversos países ao lado do cantor britânico Sting, em uma campanha internacional de conscientização sobre a destruição da floresta amazônica. A mobilização ajudou a ampliar o debate global sobre preservação ambiental e garantias territoriais para os povos indígenas brasileiros.

Ao longo das últimas décadas, Raoni participou de encontros com chefes de Estado, autoridades internacionais, ambientalistas e organizações não governamentais, consolidando-se como uma das vozes mais influentes na luta contra o desmatamento e em defesa da demarcação de terras indígenas. Ele também esteve entre os articuladores da criação e proteção de áreas indígenas no parque do Xingu, uma das mais importantes reservas indígenas do país. Mesmo em idade avançada, o líder Kayapó continuou atuando em pautas ligadas à preservação ambiental, ao combate ao garimpo ilegal e à proteção dos territórios indígenas ameaçados pela exploração econômica.

Conforme Só Notícias informou, ano passado, em encontro com o presidente Lula (PT) na aldeia Piaraçu, ele pediu ao mandatário que impedisse a exploração de petróleo na área marítima próxima à costa amazônica e solicitou maiores demarcações de terra indígenas. À época, ele recebeu a medalha Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito, maior condecoração do Estado brasileiro, em reconhecimento ao trabalho em favor dos povos originários e da proteção do meio ambiente.

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