Pesquisas recentes conduzidas por professores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) identificaram a presença de microplásticos ao longo de toda a bacia do rio Cuiabá, das nascentes ao encontro com o rio Paraguai, além de registros nos sedimentos da planície pantaneira. O avanço dessas pesquisas pautou a terceira edição do evento anual Diálogos Pantaneiros, realizada em Poconé.
O encontro trouxe o tema “Plástico: um estranho nas águas do Pantanal” e reuniu pesquisadores, instituições, poder público e comunidade para discutir os impactos do material, bem como caminhos para reduzir a presença de resíduos nos rios do bioma. Para a gerente-geral do Polo Socioambiental Sesc Pantanal, Cristina Cuiabália, o objetivo é transformar evidência científica em mobilização social. “Estamos trazendo à sociedade as pesquisas mais recentes sobre a presença do plástico na água do Pantanal e criando um espaço de diálogo que leve à reflexão e, principalmente, à mudança de comportamento. O cuidado com a água impacta diretamente a saúde e a qualidade de vida de todos nós”, destacou.
Entre os achados mais relevantes está a identificação de Bisfenol A (BPA), substância associada à decomposição de materiais plásticos e conhecida por interferir no sistema hormonal. A presença do composto amplia a preocupação sobre os efeitos da poluição para além do ambiente, alcançando potenciais impactos à saúde humana. De acordo com o professor Ibraim Fantin da Cruz, os resultados devem ser interpretados como um sinal de alerta com janela de ação. “A contaminação por microplásticos está presente em toda a bacia do Rio Cuiabá, mas ainda em níveis que permitem intervenção. Melhorias na coleta de resíduos e no tratamento de efluentes, que podem reduzir entre 70% e 80% dessas partículas, além de mudanças no padrão de consumo, são fundamentais para evitar o agravamento do problema”, explicou.
As principais fontes identificadas, segundo Ibraim, incluem o descarte inadequado de resíduos sólidos em áreas urbanas e o lançamento de esgoto contendo microfibras têxteis, um tipo de poluição difusa e de difícil contenção.
O pesquisador Pierre Girard ressaltou que o controle dessas fontes é decisivo para evitar impactos mais severos no Pantanal, pois se houver redução dos microplásticos no Rio Cuiabá, especialmente nos pontos de origem, dificilmente as consequências serão mais graves no Pantanal. “Hoje, a maior carga está concentrada próxima aos centros urbanos”, afirmou, ao completar que, embora o rio atue parcialmente como um sistema de depuração ao longo do seu curso, isso não elimina o risco de acúmulo.
A bióloga Thais de Melo, que realiza uma pesquisa de campo sobre zooplâncton no Tanque do Jurumirim, em Poconé, chamou atenção para impactos na base da cadeia alimentar. “O zooplâncton, organismo microscópico essencial ao equilíbrio dos ecossistemas aquáticos, pode ser diretamente afetado. Os microplásticos interferem no seu mecanismo de filtragem, comprometendo funções ecológicas fundamentais”, explicou.
Diante do avanço dos microplásticos nas águas do Pantanal, os pesquisadores e especialistas convergiram em um ponto central, de que o enfrentamento do problema depende de uma combinação entre ciência, políticas públicas e, sobretudo, mudanças no comportamento da sociedade, especialmente redução do uso de plásticos únicos, como copos, garrafas e canudos descartáveis. “Reduzir o uso do plástico vai diminuir muito o problema que vivemos hoje. É uma tomada de decisão”, alertou Pierre.
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