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E aí, crioulinho?

Agora que chamei sua atenção com esta expressão, nunca mais a repita, por favor. Causou bastante indignação a forma bem depreciativa utilizada pelo locutor Haroldo de Souza, da Rádio Grenal, com relação ao jogador Lucas Braga, durante a partida Grêmio x Santos, em Porto Alegre, na última quarta-feira.

Segundo matéria da Folha de São Paulo, assim o locutor teria se expressado com relação ao atleta profissional Lucas Braga, do Santos Futebol Clube: “Aquele crioulinho que está lá na ponta esquerda do time do Santos, quem é ele?”.

E ao ser informado pelo repórter de campo sobre o nome do atleta, continuou Haroldo de Souza: “Ah, é o Lucas Braga que está caído lá. É o moreno, né? Moreno, cidadão de cor, numa boa.”

Não, Haroldo de Souza, não está tudo numa boa. Não é uma boa chamar um atleta profissional de futebol e um cidadão brasileiro de “aquele crioulinho”, assim como não é legal nos Estados Unidos você chamar um negro de “nigger”. Ainda bem que o veículo de comunicação se apressou em pedir desculpas e dizer que não compactua com o racismo instalado em nossa sociedade. Mas não podemos viver de constantes pedidos de desculpas, ou de explicações prontas para este tipo de situação, como “não foi bem isso o que eu quis dizer”, ou o clássico “eu tenho amigos negros”, como se isso justificasse ser ofensivo para um outro cidadão negro, como o Lucas Braga.

Não se admitem mais certas expressões carregadamente negativas e depreciativas para quem as recebe, a par de tornadas outrora cotidianas pelo nosso passado de sociedade escravagista.

Ora, mas que excesso de politicamente correto isso, que coisa chata, então eu não posso chamar um negro de “crioulinho”? Não amigo, aprenda que não pode! Policie-se, mude seus hábitos, mude sua mente! Assim como eu não tenho o direito de chamá-lo por expressões chulas, nem por palavras de baixo calão, sob pena de ofendê-lo, você também não tem o direito de se dirigir a um cidadão negro e chamá-lo de “crioulinho”. Saiba que não é uma expressão carinhosa, de amizade, nem prazerosa para quem recebe, mas uma expressão cunhada para rebaixar, inferiorizar e diminuir. A reação de Lucas Braga ao saber do ocorrido foi quase de choro, e revela bem como é ofensiva para quem a recebe. Não a use!

Entramos no século XXI, a internet 5G está logo ali ao nosso alcance, vivemos uma nova revolução tecnológica, o trabalho remoto é uma realidade, assim como novas formas de trabalho e de relações comerciais. Determinados hábitos culturais equivocados também precisam mudar, ou melhor, precisam ser abandonados, como já abandonamos a velha máquina de escrever que ninguém usa mais e nem sente falta.

Somos um País forjado num modo de produção e de viver estruturado na escravidão e na subjugação total, o que até pouco tempo atrás, historicamente falando, tornou “natural” inferiorizar, discriminar e rebaixar seres humanos à categoria de segunda classe, quiçá terceira ou mais baixo ainda. Porém, não é porque fomos fundados assim, que assim devemos prosseguir com hábitos equivocados, com expressões, atos e atitudes cotidianas que perpetuam a discriminação e o racismo, que normalizam o que não deve ser normalizado, pois infunde no subconsciente de quem as ouve, uma ideia de inferioridade do cidadão negro.

E isso não é mais tolerável nos dias de hoje, quando avançamos um pouco mais na consciência de que somos uma Nação plural e heterogênea, formada por diversas etnias e em constante miscigenação, e onde, inclusive, está estabelecido na nossa Constituição que é um objetivo fundamental da República Federativa do Brasil “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, de raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

Esse é um objetivo fundamental que incumbe não somente aos órgãos governamentais, mas à sociedade e aos cidadãos como um todo, e para tanto, devemos nos esforçar em mudar estruturas velhas e arcaicas que não cabem mais, hábitos e atitudes que não são mais aceitáveis.

Vivemos uma nova época, vivemos novos tempos de afirmação de direitos fundamentais, e urge que nessa esteira se criem novos hábitos e uma cultura de maior respeito à diferença que caracteriza nossa sociedade. Assim como há quase 133 anos sepultamos a escravidão, urge que definitivamente sepultemos também os lamentáveis hábitos depreciativos que insistem em trazer à tona a nossa triste herança escravista.

Wagner Antonio Camilo é Promotor de Justiça de Mato Grosso