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Dom Pedro Casaldáliga será sepultado em São Félix do Araguaia; ‘foi referência para nós’, reconhecem bispos

O bispo emérito de São Felix do Araguaia, dom Pedro Casaldáliga, 92 anos, que faleceu no sábado, está sendo velado em Riberao Cascalheira (883 km de Cuiabá) será sepultado amanhã, em São Félix do Araguaia, onde viveu desde a década de 70, quando foi nomeado bispo pelo papa Paulo VI. O velório é previsto para o Centro Comunitário Tia Irene Dom Pedro havia manifestado desejo de ser sepultado às margens do rio Araguaia, região onde sempre morou, depois de deixar a Espanha e ser designado, pelo Vaticano, como administrador  da prelazia de São Félix. Sua vida foi inteiramente dedicada a Cristo e na defesa dos pobres.

Dom Pedro morreu em Batatais (SP) para onde havia sido transferido, há poucos dias, para tratar de problemas respiratórios e agravamento da doença de Parkinson, onde foi velado na capela do Claretiano e, neste domingo, celebrada missa pelo arcebispo Dom Moacir, de Ribeirão Preto (SP). Em seguida foi trasladado para Ribeirão Cascalheira para ser velado na Igreja Santuário dos Mártires, onde foi assassinado, o padre João Bosco Penido Burnier, onde, em 1976. Ao ser informado que duas mulheres estavam sendo torturadas na delegacia local, dirigiu-se até lá acompanhado do padre jesuíta Burnier. Após forte discussão com os policiais, o padre Burnier ameaçou denunciá-los às autoridades, sendo então agredido e covardemente assassinado com um tiro na nuca. Após a missa de sétimo dia, a população seguiu em procissão até a porta da delegacia, libertando os presos e destruindo o prédio. Naquele lugar foi erguida a igreja onde hoje ocorre o velório de dom Pedro

Adepto da teologia da libertação, adotou como lema para sua atividade pastoral: Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar. É poeta, autor de várias obras poéticas sobre antropologia, sociologia e ecologia. Foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas e recebeu o 1º título Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Mato Grosso. “Seu amor à liberdade inspirou sua luta contra a centralização do governo da Igreja, pois considerava que a visão de Roma era apenas uma a mais entre as várias possíveis, que a Igreja deveria ser uma comunhão de igrejas. Achava que se deveria falar da Igreja que está em São Félix do Araguaia, assim como se fala da Igreja que está em Roma, pois unidade não tem que ser sinônimo de centralização e sim de descentralização. Adepto da teologia da libertação, adotou como lema para sua atividade pastoral: Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”, descreve a prelazia de São Félix. Com problemas de saúde, Dom Pedro apresentou sua renúncia em 2005, que foi aceita pelo papa João Paulo II.

Os bispos da regional Oeste 2 (em Mato Grosso) da CNBB divulgaram carta de agradecimento e solidariedade com sentimentos de pesar pela perda de nosso irmão Dom Pedro Casaldáliga, a quem consideram “um grande profeta dos nossos tempos. Profundamente configurado a Jesus Cristo, viveu na esteira do Evangelho, anunciando o Reino com a autoridade de uma vida santificada na missão. Foi testemunha de uma espiritualidade em alto nível, pois viveu o Mistério da Encarnação sendo pobre, humilde, despojado e inserido. Viveu o Mistério da Cruz, pois experimentou a dor como preço de um grande amor revolucionário e libertador pelas pessoas e por grandes causas, sendo um homem “crucificado”. Viveu o Mistério da Eucaristia, tanto na sua admirável e profunda comunhão com Deus, quanto se doando na caridade, sendo um homem dado em alimento aos famintos do povo que luta, labuta e sofre”.

“Casaldáliga, pai dos pobres, missionário incansável, bom samaritano desse século. Lutou em favor da Vida ameaçada e ferida… contra a injustiça, a opressão, a exploração e a violência, sendo, ao mesmo tempo, uma pessoa de paz e uma luz de esperança. Comunista? Subversivo? Não. Só foi humano… e um humano exemplar. Nosso irmão Pedro foi sempre uma referência para nós: pelo seu testemunho de vida, pela sua opção pelos pequenos e pobres, pela sua defesa dos povos indígenas e trabalhadores, e pela sua proximidade e compromisso com tantos outros sofridos de nossa terra. Seu legado permanecerá vivo e eficaz no meio de nós, fazendo um bem enorme à Igreja. Defensor dos direitos humanos, assumiu o espírito do Concílio Vaticano II, sendo promotor da justiça, grande proclamador da fecundidade do sangue dos mártires, uma presença irradiante nos Intereclesiais das CEBs e uma voz sempre profética nas Assembleias Gerais da CNBB. Além disso, seus escritos e poemas revelam a grandiosidade da sua alma, a intuição do seu coração humano, o seu amor e a sua dor, bem como o eco do grito dos sofridos, oprimidos e esquecidos”, reconhecem os bispos.

“Nesta hora em que estamos celebrando a Páscoa de Dom Pedro, acreditando que ele já está participando no Mistério da Ressurreição, nossa solidariedade com o povo da Prelazia de São Félix e nosso agradecimento a Dom Adriano, pela atenção e cuidados com o irmão enfermo e alquebrado. Por Dom Pedro, nossas preces para que seja-lhe dada a eterna recompensa prometida aos que crêem, entregam a vida pela causa do Reino, anunciam o Evangelho e servem a Jesus Cristo nos menores dos irmãos e irmãs. Que sua vida e testemunho sejam sementeiras de novas vocações de profetas leigos e leigas, consagrados e consagradas, presbíteros e bispos… todos peregrinos, seguidores de Jesus de Nazaré, servidores do Povo e participantes na construção do “novo Céu e da nova Terra””, conclui a carta assinada pelo bispo de Sinop, dom Canisio Klaus, presidente da Regional Oeste 2 da CNBB, juntamente com demais bispos diocesanos e eméritos.

O governo de Mato Grosso decretou luto oficial de 3 dias pelo falecimento de Dom Pedro.

 

 

Só Notícias (fotos: arquivo/assessoria - atualizada 15:09h)