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Cardeais já estão isolados para escolher novo papa

Cardeais de 52 países de todo o mundo deram início na tarde desta segunda-feira [final da manhã no Brasil] ao conclave, a reunião para a escolha do novo papa. A partir de agora, os 115 cardeais se preparam para enfrentar uma seqüência de reuniões e votações até que o nome do novo líder da Igreja Católica seja definido. O conclave começa sem um grande favorito.

Uma missa na basílica de São Pedro, que teve início às 10h (5h de Brasília) e durou cerca de uma hora e meia, simbolizou o início do conclave. O cardeal alemão Joseph Ratzinger, considerado um dos principais nomes à chefia da igreja, presidiu a missa e demonstrou em sua homilia a linha que deve ser considerada para a escolha do papa: a defesa da doutrina da igreja frente ao relativismo atual.

Precedida por uma cruz e seguida pelo livro do Evangelho, a procissão com os cardeais-eleitores partiu da Sala da Bênção, no Palácio Apostólico. Depois de ocuparem seus lugares em mesas dispostas na capela Sistina, os clérigos ouviram Joseph Ratzinger entoar o hino sacro “Veni, creator Spiritus”, de invocação solene do Espírito Santo, em frente ao altar.

Já na capela Sistina, os cardeais fizeram o juramento individual pré-conclave. Com a mão sobre o Evangelho, cada cardeal disse: “Eu, prometo, comprometo-me e juro. Assim me ajudem Deus e este santo Evangelho”.

Terminado o juramento, começaram as reflexões e o isolamento. O mestre-de-cerimônias vaticanas, monsenhor Piero Marini, disse, em latim, “extras omnes!” (todos fora!), e os cardeais foram trancados na capela –daí o nome conclave (com chave). As portas da capela Sistina foram, enfim, fechadas.

Votação
Ainda não foi definido se haverá alguma votação nesta segunda-feira, mas consta do conclave duas sessões diárias de votações: uma pela manhã e outra à tarde. Votam todos os 115 cardeais com menos de 80 anos de idade –os cardeais Jaime Sin [filipino] e Alfonso Antonio Suáres Rivera [mexicano] não participam por motivo de saúde.

Nesta terça-feira, está programada a realização de quatro votações, duas pela manhã e mais duas à tarde. Os resultados deverão ser conhecidos às 12h e às 19h de Roma (7h e 14h de Brasília) por meio da tradicional fumaça liberada de uma chaminé instalada no telhado da capela Sistina, única comunicação entre os religiosos e o lado de fora.

Sem um grande favorito
De acordo com vaticanistas dos jornais italianos, a situação eleitoral é “incerta”. As casas de apostas colocam o cardeal alemão Joseph Ratzinger como o favorito, apesar de enfrentar resistências por ser conservador na doutrina. Dois italianos –o progressista Carlo Maria Martini e o moderado Dionigi Tettamanzi também figuram entre os favoritos. Martini, no entanto, teria já afirmado que não deseja ser papa devido a problemas de saúde –ele tem Mal de Parkinson.

O Brasil terá quatro votos no conclave. Entre os cardeais brasileiros, dois figuram entre os papáveis favoritos –dom Cláudio Hummes, 70, arcebispo de São Paulo, e dom Geraldo Majella Agnello, 71, arcebispo de Salvador (BA). Também votam dom Eusébio Oscar Scheid, 72, arcebispo do Rio de Janeiro, e dom José Freire Falcão, 79, arcebispo emérito (“aposentado”) de Brasília.

O cardeal nigeriano Francis Arinze, 72, amigo próximo de João Paulo 2º e influente na hierarquia da Igreja Católica, pode inclusive se tornar o primeiro papa comprovadamente negro a chefiar a Santa Sé. A Igreja Católica não tem registros sobre a raça dos mais de 200 papas que já comandaram o Vaticano e não se pode afirmar com segurança se houve papas negros –sabe-se que três deles, que ocuparam a chefia do papado entre o século 2 e o século 5, tinham origem africana: Vitor 1º, Melquíades e Gelásio 1º.

Novo papa
A expectativa é que o conclave dure até cinco dias. O mais breve foi o que designou Pio 12, eleito em 24 horas na terceira rodada de votação, em 2 de março de 1939. O mais longo durou quatro dias, e foi resolvido na 14ª rodada de votação com a eleição de Pio 11, em 6 de fevereiro de 1922. João Paulo 2º foi eleito em 48 horas e oito rodadas de votação no dia 16 de outubro de 1978, e reinou sobre a Igreja Católica durante 26 anos e cinco meses. Seu antecessor, João Paulo 1º, foi eleito em 24 horas, após quatro rodadas de votação.

De acordo com as novas regras, após 30 votações [nas quais o candidato deve alcançar dois terços mais um dos votos], o camerlengo [líder interino do Vaticano] pode mudar o sistema, optando pela escolha por maioria simples, no caso de apenas os dois mais votados nas sessões anteriores disputarem o cargo. O conclave termina quando o novo sumo pontífice concorda com sua eleição.

Fiéis
Na praça de são Pedro, centenas de fiéis, turistas e curiosos acompanharam em dois telões a cerimônia de entrada dos cardeais-eleitores na capela Sistina.

O público não se compara ao registrado no funeral de Karol Wojtyla, quando cerca de 3 milhões de peregrinos estiveram em Roma para dar adeus ao papa morto.

A Prefeitura de Roma aumentou o efetivo policial na região, estimando que um grande número de pessoas irá à praça São Pedro no final da tarde para saber o resultado da primeira votação deste conclave, que ainda não está confirmada. A primeira votação pode ficar para a terça-feira.