Em artigo recente, o tubarão-da-Groenlândia serviu de companhia a uma reflexão sobre a pressa com que vivemos. Agora volto ao mundo animal por outra razão: o arau-comum. De plumagem preta e branca, costuma ser confundido com o pinguim, sem ser seu parente próximo. Em voo, bate as asas duzentas vezes por minuto; na água, usa-as como nadadeiras para caçar. A ferramenta é a mesma, e o uso muda com o ambiente.
Nós também mudamos com o ambiente, às vezes por aprendizado, outras por cálculo. Rever uma ideia diante de fatos novos é sinal de honestidade. Ajustá-la conforme a plateia é outra coisa. Há convicções que parecem firmes até o dia em que passam a custar alguma coisa.
Conheço quem exija lealdade e trate a confiança alheia como moeda de troca. Conheço quem reclame das regras e peça exceção para si. Basta pegar um ônibus e muitos defendem que é preciso ceder o assento aos idosos, mas, quando o idoso se aproxima do banco, o passageiro finge que está dormindo. E não é só no ônibus, é na fila, é nas salas de reunião.
Aristóteles, na Ética a Nicômaco, sustenta que as virtudes não nascem em nós por natureza nem contra ela. Somos aptos a recebê-las e as aperfeiçoamos pelo hábito.
O preto e o branco do arau-comum me remetem ao pavimento mosaico da tradição maçônica, que passei a olhar de outro jeito. Ao adentrar o templo, a nuance e a dualidade de cor se impõem de imediato. Os quadrados alternados lembram que a existência comporta contrastes e que nenhuma cor explica o conjunto. Reconhecer nuances exige distinguir as condutas, e nivelá-las seria o erro oposto.
A história oferece exemplos. Nelson Mandela saiu de 27 anos de prisão e escolheu a reconciliação sem apagar a violência do apartheid. Ulysses Guimarães conduziu a Constituinte e entregou ao país a Constituição de 1988. Kofi Annan fez da negociação o seu principal instrumento na ONU. Nenhum foi infalível, e o caráter de cada um se mediu também pelo modo como lidou com os próprios erros.
Do outro lado, seguem aparecendo líderes para quem divergir é trair. Hannah Arendt, em A Condição Humana, trata a pluralidade como a própria condição da política, ou seja, agir é agir entre diferentes.
Seria cômodo, porém, restringir isso aos governos. Ainda há quem cumpra a palavra, admita um erro, recuse um privilégio, preserve o respeito depois de uma discordância. Esses gestos não corrigem os problemas do mundo. Sustentam a convivência.
Talvez nossa dificuldade seja tomar a desenvoltura de alguém pela consistência da sua integridade. O arau-comum nunca precisou convencer ninguém de que sabe nadar. Mergulha.


