Alexandre Garcia

Pátria amada

Causou discussão um pedido do Ministério da Educação, para que seja lida uma mensagem do Ministro e depois se cante o Hino Nacional diante da Bandeira do Brasil. Cantar o hino diante da bandeira é o óbvio ululante. Estar com a bandeira no alto do mastro todos os dias é o óbvio que se espera de uma escola, onde se consolidam a nacionalidade, a cidadania e o patriotismo. O MEC pedia que a ocasião fosse filmada e remetida ao Ministério. Obviamente nenhuma escola é obrigada a isso; obviamente, nenhuma escola vai filmar suas crianças sem consultar os pais. Diante da discussão, o Ministro retirou o pedido de filmagem.

O problema maior está na mensagem do Ministro Vélez Rodriguez. Embute uma propaganda ao dizer “vamos saudar o Brasil dos novos tempos”. Um pecadilho se considerarmos os milhões que governos anteriores gastaram, dos nossos impostos, em propaganda e, afinal, a cada minuto que passa chegamos a novos tempos. A questão maior está no encerramento da mensagem, com o que foi um slogan de campanha: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!”. Mais tarde, o ministro se arrependeu e mandou outra mensagem, sem o slogan, para substituir a original.

Ora, direis, a campanha acabou, portanto o slogan já não é de campanha para um candidato. Além disso, o Brasil precisa mesmo estar acima de tudo. Tudo bem, aceitável. Mas aí vem a conclusão: “Deus acima de todos”. Um candidato pode ter essa preferência, opção, ou crença, e se apresentar assim aos eleitores. Mas não um agente do Estado Brasileiro. Porque o estado é laico. É uma democracia, não uma teocracia, como o Irã ou o Vaticano. E a que deus se refere? Ao dos cristãos e judeus? Ao do Islã, dos xintoístas, dos budistas? Como se sentiriam os jovens brasileiros, em crescente descrença num deus? Estatísticas mostram que um em cada cinco são ateus. A CNBB se diz preocupada com o crescimento dessa ausência de religião. Não estou entre os ateus, mas entre os que acreditam que o estado não deve misturar questões de fé.

Comecei esta semana cantando o Hino a plenos pulmões, para acompanhar as crianças que estavam no palco do auditório do Centro de Instrução dos Fuzileiros Navais, na Ilha do Governador. Me perdoem os fãs da Marselhesa, mas ela tem sangue e degola. O nosso hino é um poema sinfônico belíssimo na letra e música. Nos fins de semana, a bandeira está sempre no topo de minha casa, e é saudada. Durante toda minha infância, no grupo escolar, de 1946 a 1950,  hasteávamos a bandeira cantando o hino, na hora cívica de sábado. Nada a ver com governo, mas com o Brasil. Pena que  não encontrei na Constituição atual, na parte que trata da Educação, nada sobre estímulo ao patriotismo. Será que nossa Educação é apátrida?

Alexandre Garcia