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Oceano da segurança

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Alexandre Garcia

O recepcionista do hotel em Amarante, no norte de Portugal, na intenção de ser amistoso, ao ver meu endereço, perguntou: “Em Brasília também é perigoso?”. Expliquei que não, pelos padrões brasileiros, mas muito perigosa pelos padrões portugueses. Mencionei cidades brasileiras que são bem mais perigosas que a capital federal, mas não era necessário. Ele já sabia porque convive com brasileiros que trabalham no ramo hoteleiro de Portugal, e revelam porque vieram viver em terras lusitanas. Sempre é para fugir dos perigos por que já passaram no Brasil.

O diálogo coincide com a divulgação de uma pesquisa Datafolha no Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostrando que quase 70 milhões de brasileiros já tiveram contato com o crime; que 41% das mulheres e 30% dos homens já não saem à noite por medo. Que o maior pavor é com vigarices digitais, assalto a mão armada e receber um tiro na rua. Entre as mulheres, 82% temem agressão sexual.  Imagine o pavor das mães em relação às suas crianças.

Há dias, em Lisboa, encontrei um casal de Fortaleza que se mudou para Portugal depois de sequestro com assassinato. Contaram-me que seus filhos pequenos estão aprendendo a andar na rua, para irem à escola sozinhos – como todos íamos na minha geração. As crianças tiveram que perder o medo de andar na calçada, brincar no parque público. No mesmo dia, recebíamos amigos e, quando eles saíram, vimos que havia uma mochila do lado de fora da porta. A arrumadeira, que trabalharia no dia seguinte, não quis perturbar-nos, e deixou lá a mochila. Já estava acostumada com a segurança de seu novo país, depois de ter deixado Pernambuco após o quinto assalto. 

O vizinho que me visitava, às vezes divide comigo um caféno quiosque da esquina. Certa vez deixou por lá a carteira, com dinheiro e cartões. Ninguém levou. O mesmo aconteceu com uma sacola de compras que minha mulher deixou na calçada, diante do Museu Fernando Pessoa. Só lembrou cinco quadras á frente, quando tomávamos café numa mesa de calçada, sobre a qual ficam nossos celulares, enquanto passa muita gente de bicicleta rente às mesas. Ela voltou para buscar a sacola, que estava no mesmo lugar onde a deixara.  Lisboa tem poucas garagens nos prédios centenários. Os carros ficam na rua. Carros arrombados ou vidros quebrados são exceção. 

Como viram, fiz também a minha pesquisa e lamento constatar que o medo de brasileiros no Brasil é medo de outros brasileiros. Inclusive daqueles que a Itália classifica como máfia e os americanos como terroristas narcotraficantes. Os governantes usam muito a palavra soberania, mas as organizações criminosas exercem domínio em rios e pistas aéreas da Amazônia e em áreas do Rio de Janeiro e outras cidades. O estado brasileiro desrespeita a Constituição que estabelece que segurança pública é dever do estado. A Constituição acrescenta que é responsabilidade de todos, mas o estado tudo faz para impedir que as pessoas se protejam convenientemente. Pelo que vejo em Portugal, a proteção que conseguem é a barreira do Oceano Atlântico. E o Presidente acha que a solução é criar mais um ministério.

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