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A seleção somos nós

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Alexandre Garcia

Na véspera do jogo com a Noruega, a seleção brasileira já era praticamente hexa-campeã do mundo, como garantia o ufanismo do noticiário. No dia seguinte ao jogo de 2 x 1 para a Noruega, a seleção era apenas uma colcha de retalhos, eivada de defeitos. Ou seja, o Brasil é o maior, mas também é vira-lata. Como não vi a partida, fui pesquisar as impressões dos analistas, comentaristas e técnicos infiltrados na população brasileira. E encontrei estes defeitos: lentidão mental, despreparo, falta de espírito de equipe, ausência de liderança, fragilidade emocional, nervosismo nos momentos que exigem cabeça fria, falta de empenho, ausência de “raça” para defender a camisa do Brasil, distância da realidade nacional, técnico estrangeiro, falta de planejamento, falta de craques nas posições decisivas, movimentos táticos ultrapassados e, até no futebol, politização; em torno do maior craque, Neymar. “Jogador de home office”– carimbou o Presidente.

Quando terminei a pesquisa, fez-se a luz. Eureka! Essas são características do brasileiro em geral. A seleção nos representa, como nos representam os vereadores, deputados e senadores a quem nem lembramos se demos o voto. É bem isso que marca nossa eliminação no concerto das nações, mesmo tendo um gigantesco potencial, suficiente para estarmos entre as primeiras nações do mundo, e ombrearmos com Estados Unidos e China. Somos tudo aquilo que diagnosticamos na seleção brasileira, inclusive com o cacoete de sermos campeões antes do jogo e frustrados depois dele, porque ingenuamente acreditamos nos gritos alheios e nos nossos próprios gritos. Preferimos nos enganar, ainda que a realidade nos mostre reiteradamente que depois sofremos. Viver de esperança é poético, mas nada prático.

A última Copa que acompanhei com interesse foi a de 1970. Fomos tricampeões com “raça”, determinação, competência, estratégia e tática insuperáveis, espírito de equipe, dedicação, sem vaidades ridículas, com rapidez mental e física no campo, técnico e jogadores radicados no Brasil, jogando com entusiasmo. Eram um retrato do país e estimularam um otimismo e entusiasmo que resultou no milagre brasileiro, em que crescemos 11,2% em média anual por quatro anos. Chegamos ao crescimento de 14% do PIB em 1973! Não foi governo; foi a semente da seleção de Zagallo, que caiu em terra boa.

No Evangelho de domingo, Mateus conta a parábola do semeador, em que Jesus menciona os que “olhando, não vêem; ouvindo, eles não escutam nem compreendem”.  A alienação que está entre os defeitos da Seleção também é uma das mazelas do eleitor brasileiro, que olha e ouve, mas não vê, não escuta nem entende. E aí, somos eliminados na disputa mundial pelo amanhã de cada um. A eleição dentro de dois meses e meio vai decidir o futuro da nossa família, do nosso emprego, dos impostos que pagamos, da nossa segurança, da nossa saúde, do nosso bem-estar, dos preços e juros que pagamos, do carro, da picanha, das escolas dos nossos filhos e netos, dos hospitais de nossa velhice. Mas só discutimos nomes e não como cada candidato  poderá jogar durante os próximos quatro anos. Vai cair onde a semente do voto? Na beira da estrada, no meio das pedras e espinhos ou em terra boa?

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