O ex-secretário de Estado da Casa Civil, Pedro Nadaf, iniciou seu depoimento à juíza da 7ª Vara Criminal, Selma Arruda, esta tarde, confirmando ter feito um acordo de colaboração premiada com o Ministério Público, e que as acusações do MPE contra ele são verdadeiras. Ele revelou como foi feito o esquema de corrupção na desapropriação de uma terreno, em Cuiabá, por parte do governo estadual. “Quero reafirmar todo o que falei à autoridade policial na Delegacia Fazendária. Trata-se de uma desapropriação de uma área e na época o então governador Silval tinha que saldar um compromisso financeiro que ele tinha com o empresário Valdir Piran e o governador estava procurando formas de viabilizar recursos para saldar esse compromisso e ele comentou que o procurador Francisco Lima havia comentado que havia uma área que estava pronta para o pagamento de indenização pela desapropriação”.
Segundo Nadaf, Francisco Lima lhe contou que já havia um acordo com o então proprietário da área para que houvesse retorno de 50% do valor que fosse pago pela desapropriação. Após acordar o esquema com o então governador, Nadaf conta que ficou responsável por sentar com cada secretário envolvido no processo de desapropriação para viabilizar o esquema de fraude no processo, sendo necessária a participação de setores como Fazenda, Planejamento, Intermat, Procuradoria Geral do Estado.
Segundo Nadaf, Silval Barbosa concordou em reservar R$ 5 milhões do desvio para rateio entre os agentes envolvidos na fraude. Os demais R$ 10 milhões foram utilizados para quitar a dívida com Valdir Piran, o que foi feito por intermédio de Filinto Muller, à época dono de factoring. Pedro Nadaf conta que Francisco Lima pagaria a parte referente a Afonso Dalberto, Arnaldo Alves e a dele próprio. Marcel de Cursi, ex-secretário de Fazenda, teria dito que não queria receber nada naquele momento, mas que acertaria o pagamento depois com Nadaf, que diz que cada um receberia em torno de R$ 800 mil.
Nadaf conta que como não conhecia Filinto Muller, pediu que ele entregasse um cheque caução a Valdir Piran para garantir que ele realmente faria os repasses da dívida de Silval com o empresário.
Segundo Nadaf, foi o ex-procurador Francisco Lima quem ficou responsável por fazer toda a operacionalização da desapropriação, tratar com o dono da imobiliária o retorno da propina e com Filinto Muller a operação da lavagem de dinheiro e que ele, Nadaf, trataria com Marcel de Cursi e com Arnaldo Alves o recurso e o remanejamento desse recurso para garantir o processo do Jardim Liberdade.
O ex-secretário relata ainda que no último ano de governo de Silval, começou a ser cobrado R$ 1 milhão referente à festa de posse do então governador, que foi realizada pelo buffet Leila Malouf. Desse montante, Nadaf afirma que pagou R$ 950 mil e os outros R$ 50 mil foram pagos por Maurício Magalhães, que era adjunto da Casa Civil e responsável pela festa de posse na época em que o evento ocorreu.
Ele afirma também eu usou R$ 200 mil para pagar o grupo Milas de Comunicação, que estava cobrando esse valor de Silval Barbosa. O caso é investigado em processo sobre extorsão. Segundo Nadaf, por ter pago Antônio Milas com cheque oriundo de factoring de Filinto Muller, o jornalista desconfiou, chegou a conversar com Filinto, que também passou a ser extorquido em R$ 300 mil para que o caso não fosse publicado nos veículos do grupo Milas, conforme Nadaf.
Ele cita também uma dívida de Silval Barbosa com a então deputada estadual Luciane Bezerra (PSB), que foi quitada também com valores oriundos do esquema de desapropriação. “Eu ia pegando o que ia caindo e ia pagando”.
Nadaf diz que recebeu de Cursi um envelope escrito R$ 600 mil e que foi entregue a João Justino para compra de ouro. Isso teria começado porque Nadaf disse a Marcel que tinha negócio com João Justino.
Segundo ele, como o Estado tinha projeto de mineração em Peixoto de Azevedo e por isso João Justino ia a cada 15 dias para lá e trazia pepitas de ouro comprado com 30% de deságio, de forma ilegal, foi aproveitada a oportunidade. “Eu passava pra ele recursos quando ele ia. Eu pedia pra ele comprar e trazer ouro. Aí eu falei pro Marcel: Se precisar, ele pode comprar ouro pra você também. Se você quiser, o que eu devo a você eu pago em ouro”, relata o ex-secretário.
Pedro Nadaf confirma que chegou a comprar cerca de 16 quilos de ouro junto a João Justino. “Eu tive uma rentabilidade em torno de R$ 200 mil nesse ouro que eu comprava e vendia”.
Nadaf diz que Marcel tinha crédito com ele de R$ 700 mil mais R$ 200 mil referente a outro esquema que ainda está em sigilo.
Pedro Nadaf afirma que Silval estava ciente de todos os pagamentos que eram feitos a Valdir Piran referente a dívida de campanha eleitoral, pois todo mês era entregue uma nota promissória para comprovar o negócio.
Pedro Nadaf afirma que governo era totalmente engessado porque o então secretário de Fazenda, Marcel de Cursi, tinha “total controle financeiro do Estado” e que ele nunca liberava uma despesa caso não houvesse recurso e que por isso teve que ser contatado para liberar o recurso para a desapropriação do Jardim Liberdade.
Com relação ao pagamento da festa de posse que estava sendo cobrada pelo empresário Alan Malouf, Silval Barbosa determinou que Maurício Guimarães ajudasse a pagar a dívida e, com isso, ficou combinado de Nadaf pagar R$ 500 mil e Maurício os outros R$ 500 mil. Pedro Nadaf disse que pagou a sua parte em diversas parcelas, sempre que recebia valores ilícitos de esquemas no governo. Como Maurício Guimarães não saldou toda a sua parcela na divida, foi Nadaf quem assumiu o restante da cobrança diante das insistentes cobranças da parte de Alan Malouf.
Pedro Nadaf afirma que conversou com o então secretário de Planejamento Arnaldo Alves sobre guardar parte do dinheiro ilícito com o empresário Alan Malouf, com quem Arnaldo tinha vínculo de amizade por jogarem tênis no mesmo clube. Ele também afirma que pediu para Alan Malouf firmar um contrato do buffet Leila Malouf com a NBC Consultoria, empresa de fachada de Pedro Nadaf, isso porque ele queria obter lastro para sua empresa.
Questionado pela promotora Ana Bardusco se Valdir Piran sabia da origem ilícita do dinheiro que estava recebendo referente à dívida de Silval, Nadaf disse que não entrou nesse detalhe com o empresário, que apenas avisou a ele que seria procurado por Filinto Muler, que seria o responsável por entregar um cheque caução e depois ir pagando a dívida de R$ 10 milhões em diversas parcelas.
Ele relata ainda que certa vez, Piran recebeu um cheque sem fundo e foi até o Palácio Paiaguás acompanhado de seu filho Valdir Piran Júnior, muito irritado, chamando Silval de "picareta" e que na ocasião, chegou a levantar uma cadeira e a gritar, chegando a cair no chão.
A promotora Ana Bardusco questionou se Nadaf usou alguma quantia oriunda da desapropriação para fazer pagamento a Luciane Bezerra e ele afirma que acredita que sim. “Ela vinha pra Cuiabá geralmente na terça e já ficava ligando lá no gabinete pra cobrar. Eu sei que cerca de R$ 700 mil eu paguei”. “Cada um tinha que cuidar dos seus ilícitos para não expor a organização e, consequentemente, os membros dela”, diz Nadaf.
O ex-secretário diz que dentro da cadeia, no Centro de Custódia da Capital (CCC), estava sentado na cama assistindo um telejornal quando foi noticiado que o ex-secretário Pedro Elias estaria fazendo delação premiada. Segundo ele, o ex-chefe de gabinete Sílvio César Corrêa Araújo estava sentado em uma cadeira ao lado e fez um gesto com a mão e disse que delator tinha que morrer. Esse episódio deixou Nadaf preocupado porque já estava sendo pressionado pela família a firmar acordo de delação. Ele relata ainda que Sílvio demonstrava temperamento forte e inquietação, sempre entrando em sua cela e querendo saber o que ele estava escrevendo em suas anotações do cárcere.
"Eu fiquei muito preocupado pela minha integridade física quando ele fez essa colocação".
Pedro Nadaf diz que Silval Barbosa não tem conhecimento de como ocorreu a divisão da propina entre seus secretários, mesmo tendo partido dele que isso ocorresse.
O advogado de Egydio Neves, da defesa de Levi Machado, questiona quem foi o responsável por extorquir o empresário Antônio Rodrigues Carvalho, ex-dono da área desapropriada no Jardim Liberdade, a pagar 50% da desapropriação para a organização criminosa e Nadaf diz que quem era o responsável por tratar com o empresário era o então procurador Francisco Lima.
O advogado de Francisco Lima, João Cunha, questionou quais os compromissos citados por Pedro Nadaf referentes à operação Sodoma 1. Nadaf responde que era um compromisso de R$ 2 milhões do ex-governador, o que está em investigação em outro processo que corre em sigilo. O advogado reclama do fatiamento das investigações e pergunta se há envolvimento do deputado federal Carlos Bezerra (PMDB), o que Nadaf diz que não tem conhecimento.
João Cunha pergunta se alguma parte do dinheiro de propina foi usado para repassar a conselheiros do Tribunal de Contas e Nadaf nega.
O advogado de Francisco Lima pergunta se Pedro Nadaf realizou pagamento de valores ilícitos a Celso Ricardo de Borba Azóia, irmão de Luciane Bezerra. Nadaf nega e diz que pagou a ex-deputada em cerca de cinco parcelas, mas não sabe especificar com recurso de qual esquema de corrupção. O ex-secretário diz que sempre que Luciane vinha de Juara para Cuiabá, ela começava a telefonar para Nadaf cobrando a dívida de Silval e ia até a Casa Civil para receber os valores. Em seguida, por se tratar de prefeita, portanto, autoridade com foro privilegiado, a juíza Selma Arruda indefere as perguntas relacionadas à política.
A defesa de Arnaldo Alves começa a questionar Pedro Nadaf a respeito de conversas ameaçadoras entre o ex-secretário de Planejamento e Nadaf e ele disse que isso nunca ocorreu por parte de Arnaldo.
A defesa questiona sobre os documentos que Nadaf entregou ao MPE para corroborar seu acordo de delação e ele diz que o caso está sob sigilo.
Com relação aos valores que recebeu no esquema criminoso do Jardim Liberdade, Nadaf afirma que ficou com R$ 500 mil. O destino foi variado, com gastos pessoais e negócios com Alan Malouf, segundo ele.
(Atualizada às 18h24)


