Política

Jefferson envolve Lula na crise política e troca insultos com José Dirceu

O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) envolveu pela primeira vez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas negociações de cargos. Segundo Jefferson, o acordo de Furnas foi tratado na antesala do presidente, no Palácio do Planalto.

“O assunto foi tratado entre mim, vossa excelência, o ministro Walfrido [Mares Guia] e o presidente Lula ouvindo”, disse ele, durante sua intervenção no depoimento de Dirceu no Conselho de Ética da Câmara.

Jefferson disse que Dirceu nega os fatos, mas que está mentido. Ele acusou ainda Dirceu, que assumiu o mandato parlamentar de aproximar Lula da Portugal Telecom e depois autorizou que o PTB mandasse emissários para Portugal para tratar com a empresa a negociação para a liberação do dinheiro. “Vossa excelência nos liberou para mandar emissários para que negociássemos um acordo pusesse em dia as contas do PT e do PTB.”

Dirceu negou as acusações. “Não é verdade, o senhor está mentindo”, disse o ex-ministro, acrescentando que foi grave envolver o presidente Lula.

A Portugal Telecom é uma multinacional que detém participação em várias empresas de comunicação no país.

Jefferson disse que seu erro e de todo o Congresso “foi acreditar que Dirceu era todo poderoso, de acreditar que ele mandava em tudo e fazia tudo sozinho”. “Vossa excelência não estava sozinho, não tinha esse poder todo.”

O deputado fluminense atacou pesadamente o ex-ministro José Dirceu, que presta depoimento no Conselho de Ética da Câmara. Jefferson, que olhou por várias vezes para as câmeras de televisão, afirmou que Dirceu “não sabia de nada”, em chave obviamente irônica. Durante o discurso, Dirceu se manteve impassível, olhando algumas vezes para Jefferson e fazendo anotações.

“Não tem ‘mensalão’ no Brasil. É conversa da imprensa. Todos os jornais mentem, todas as revistas do Brasil mentem. Todo o povo brasileiro pré-julga este humilde”, diz Jefferson.

Relações com o PT

A principal tese que o deputado do Rio procura “vender” em seu discurso é de que o então “principal homem da República” e “real vice-presidente do PT” não tinha como não saber das movimentações financeiras do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza e dos saques em dinheiro ou mesmo das decisões da antiga Executiva nacional do PT.

“Era tudo gente dele [em referência a Silvio Pereira e Delúbio Soares]. Gente dele, que ele defendeu até o último instante. Ele não sabia nada disso”, afirmou Jefferson.

“Ele não lia os relatórios da Abin [Agência Brasileira de Inteligência]. A Polícia Federal não dizia nada para ele sobre as malas de dinheiro. A Polícia Federal não contava nada para o homem mais importante do governo. A cúpula do PT, as articulações dessa cúpula. o deputado José Dirceu não sabia nada disso. O Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras], que controla essas movimentações financeiras, não disse nada para ele sobre os saques à vista”, afirmou Jefferson.

O plenário do Conselho, lotado de parlamentares e jornalistas, manteve-se em silêncio durante todo o discurso de Jefferson. O silêncio só foi quebrado quando o deputado fluminense afirmou ter “medo” de Dirceu: “Tenho que confessar que tenho medo de Vossa Excelência. Porque Vossa Excelência provou ter os instintos mais primitivos”.