Opinião

Representatividade: é preciso mudar o referencial de quem é digno de ocupar o poder

Em outubro de 2018, pouco depois do resultado das eleições, lembro de ter ido a público enquanto presidente do Conselho Estadual de Direitos da Mulher para parabenizar às mulheres eleitas naquele ano. Naquela eleição tivemos um marco em nossa história: o número de mulheres eleitas em 2018 cresceu 52,6% em relação ao processo eleitoral de 2014 no país.

Para uma parte da população que a menos de 100 anos não podia votar, é uma vitória. Em 25 de outubro de 1927, o movimento sufragista no Brasil alcançou sua primeira conquista: o reconhecimento do alistamento eleitoral feminino no estado do Rio Grande do Norte. Representatividade, porém, não se resume a um único poder. Lógico. A ideia sequer se sustentaria se atrelada à política eleitoral.

O Estado brasileiro é composto de três poderes e se hoje, por competência e modificação constitucional que enfocam impessoalidade, eficiência e legalidade, o ingresso nos cargos públicos já é acessível e ocupado por mulheres, o mesmo não se pode dizer das chefias de Poder, ou órgãos. Ou seja, não é apenas o “estar”. Estar por ser esposa de fulano, filha de sicrano… (a triste história de nossas primeiras candidatas, que até hoje ainda vemos despontar).

Nós, mulheres, por nossas competências e justamente por termos habilidades e perfis diferentes, podemos e precisamos ocupar lugares de decisão, seja em entidades públicas ou privadas. A equidade de gêneros é fundamental para a eficiência. É impossível gerir, legislar, administrar ou, na iniciativa privada, ser bem-sucedido com seu público, se o pensamento que lidera enxerga só a dinâmica social do ponto de vista de metade da população. A diversidade promove referências e pontos de vista completamente diferentes. As pesquisas e projetos no país podem provar.

A iniciativa da consultoria GPTW (Great Place to Work, na tradução livre Ótimo Lugar para Trabalhar), por exemplo, está há 4 anos no Brasil e realiza anualmente o GPTW Mulher, com o objetivo de premiar as melhores empresas para mulheres trabalharem no Brasil. De acordo com a consultoria, em 2019 as empresas premiadas tiveram um aumento de faturamento de 12,2% em média, um crescimento seis vezes maior do que o registrado no mercado em geral.

Também é desta consultoria a observação de que nas últimas duas décadas, 8,4 milhões de brasileiras entraram no mercado de trabalho e que as mulheres movimentam R$ 1,7 trilhão por ano. Segundo dados do Locomotiva Instituto de Pesquisa, uma equiparação de salários entre homens e mulheres no Brasil colocaria R$ 484 bilhões na economia por ano. E não são apenas os números da economia que importam.

Representatividade tem um efeito muito maior: a função propedêutica. O mundo que estamos criando. Quando falamos em representatividade, em ocupar funções e cargos de gestão em órgãos públicos, estamos mostrando de forma simbólica para meninos e meninas que estão em casa que a igualdade é algo natural. Como é possível legislar, pensar em políticas públicas e em decisões de âmbitos judiciais que reflitam em nós, mulheres, mas que não nos envolve no debate? Somos uma sociedade patriarcal, que por séculos foi pensada e governada para e por homens. Muito do que somos hoje é o retrato de heranças em que não éramos vistas como sujeito social.

Vale lembrar, no entanto, que a sociedade é dinâmica e que nós, mulheres, podemos e devemos ser construtoras das normas sociais. Nossa participação em todas as esferas do poder é urgente. A mudança já começou, mas é preciso entender que o caminho não tem um fim e que avançar na luta por nossos espaços é um trabalho diário.

Glaucia Amaral é procuradora do Estado de Mato Grosso, presidente do Conselho Estadual de Direitos da Mulher e da APROMAT