quarta-feira, 28/fevereiro/2024
PUBLICIDADE

"Bendito" Telefone

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Seu Chico e Dona Josefa eram de uma cidade do interior. Gente ordeira e trabalhadora. Tinham um sonho: comprar um telefone.
Ela arranjou dois turnos de doméstica e ele conseguiu podar mais árvores e cortar mais grama de residências e comércios. Trabalharam arduamente.
Aí compraram o bendito e sonhado telefone. Que beleza poder telefonar para os parentes lá longe. Os filhos também tiveram sua vez (eram em cinco), o mais velho namorava. Os vizinhos vieram felicitar:
– Parabéns pelo telefone.
– Mas vizinho, é nosso, não façam cerimônia.
E, de fato, não fizeram nenhuma cerimônia.
Um mês passado, veio à primeira conta do telefone:
– Cruz em credo! Mas o que é isso? Vai quase tudo o que ganho… lamentou a Josefa.
– Mulher, deve ser engano. Eu vou reclamar.
Reclamou. Mas não havia engano: plano, taxas, serviços, interurbanos, etc.
Aí passaram a cortar os gastos com telefonemas de vizinhos, pouparam e… deu quase a mesma coisa…
– Mas desse jeito não dá, dizia ele.
Os meninos haviam telefonado para um certo programa de televisão e não sabiam que era tudo cobrado… e bem cobrado.
Josefa e Chico então tomaram uma decisão heróica: desligar o telefone.
Ele resoluto puxou a tomada e enfiou o aparelho dentro de um saco e escondeu atrás dos casacos de inverno.
Viveram felizes por mais ou menos meio ano. Os serviços de poda aumentaram e Josefa recebeu um aumento.
– Sabe o que é Chico, nós podíamos comprar um carro.
– Também já pensei, mas deve ser usado, é claro.
Voltaram a sonhar: passear nos finais de semana… como é bom sonhar!
Calcularam o quanto poderiam dispor por mês num financiamento.
Tiraram um dia para ir a uma garagem. Gostaram de um modelo (o mais antigo que poderia ser financiado). Aparentemente estava bem conservado e ela gostou sobremaneira da buzina que imitava um boi berrando. Foram até o escritório preencher a imensa ficha cadastral e demais formulários que seriam submetidos ao banco.
– Voltem segunda-feira para ver se o banco aprova o financiamento.
Voltaram. Que decepção:
– Vocês estão com o nome sujo na praça.
– Mas não pode ser, nós somos pessoas honestas.
– Há uma pendência de um telefone. Acontece que está protestado.
– Protesto? Mas nós não usamos mais o tal telefone.
– Vocês não deram baixa da linha e as taxas vêm mensalmente.
O casal ajuntou o queixo do chão. Por terra foram os sonhos… ele ajuntou o chapéu, pôs na cabeça e disse:
– Bendito telefone*!

*Não é mera coincidência que a metáfora do “telefone” utilizada na crônica, serve de exemplo com a burocracia atual de planos, taxas, serviços, fidelidades, entre outros, que consomem o nosso precioso tempo e dinheiro com ofertas de produtos e serviços que nem sempre queremos ou necessitamos.

Jeferson Odair Diel ([email protected]) e Ireneu Bruno Jaeger ([email protected])

COMPARTILHAR

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Mais notícias

A grande expectativa coletiva

É muito fácil presentear quem não precisa de amparo...

Não é apenas água que falta em Várzea Grande!

Se você mora em Várzea Grande ou tem um...

Somos idealizadores de objetivos

Ao comprometermos com algo infinitamente superior as nossas forças,...

Aqui não cabe potoca

Antigamente, lá na roça os homens, em sentido lato,...