domingo, 3/março/2024
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Nós vendemos ou somos comprados pela China?

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No mês de abril, pela sexta vez consecutiva, empresários mato-grossenses estiveram na China para visitar a 105ª edição da ‘China Import and Export Fair’, conhecida como Canton Fair. Com movimento de 26 milhões de dólares, a feira tem 1.125.000 m² e conta com mais de 20 mil expositores, além de uma gama de opções desde mini lâmpadas de LED até máquinas e equipamentos destinados a parques industriais.

A programação da Missão Empresarial à China foi minuciosamente preparada pelo Sistema Federação das Indústrias no Estado de Mato Grosso (Sistema FIEMT) para provocar quebra de paradigmas, ampliar a rede de contatos, conhecer a cultura local e, é claro, apresentar oportunidades de negócios. Experimentar alguns dias na China causa todos os tipos de impactos possíveis aos participantes e, até hoje, confirmo que são provocações que despertam insights, ideias, indagações e, principalmente, a constatação de que é preciso mudar rapidamente para continuar crescendo.

Nesta última viagem incluímos um bate-papo, em Shanghai, com o Foro Brasil, um grupo de 36 executivos brasileiros na China que reúne uma vez por mês para discutir os entraves comerciais e propor soluções para melhorar o acesso e a manutenção de produtos brasileiros naquele país. Como era a última atividade do grupo antes de retornar ao Brasil, a intenção era contemplá-los com uma visão de futuro sobre a China e contribuir com informações estratégicas para os visionários e empreendedores do grupo.  Foi nessa reunião que ouvimos, quase que como um grito de alerta, que nosso país não está olhando para a China como o restante do mundo: com olhos de oportunidade, com interesse e com intenção de aproximação. Conhecemos muito pouco do mercado chinês, da cultura, dos meios de produção, do seu povo. Pior que isso: ainda não aproveitamos nossa situação de país estratégico frente ao nosso principal parceiro comercial. Falta agilidade e menos dificuldade para resolver os processos burocráticos e de política internacional por parte do Brasil, fato que auxiliaria as negociações e a conclusão dos negócios.

Desde 1978, após as reformas implantadas por Deng Xiaoping, a China mudou sua estratégia e ampliou seus parceiros comerciais, diversificou seus fornecedores e consumidores, com destaque para a América Latina, que desperta interesse para atuar como seu parceiro estratégico, tendo especial atenção ao Brasil, sobretudo em virtude de nossas comodities.  Nesse cenário, em 2008, a China tornou-se nosso principal parceiro comercial. A afirmativa pode causar uma impressão do grandioso empreendedorismo nacional, mas quando verificamos a diversidade das importações chinesas e o market share dos nossos principais produtos, chegamos à conclusão que ainda não conquistamos aquele mercado. De 2005 a 2007, por exemplo, a China aumentou em 143% a compra de óleo de soja, saltando de US$ 873 milhões para US$ 2,2 bilhões. Nós contribuímos com apenas 14% dessa fatia, sendo a Argentina seu maior fornecedor, com 80% do volume. É possível vislumbrar possibilidades a partir de uma simples leitura da Agenda China, divulgada pelo Governo Federal em 2008, que apresenta um estudo com 619 produtos prioritários de interesse da China, sendo que 147 têm acesso a curto prazo, como é o caso da carne suína, frango, peixes, óleo de soja, massas e preparações alimentícias, farinhas para animais, produtos minerais, petróleo e derivados, produtos químicos, produtos farmacêuticos, tintas, material para higiene pessoal e cosméticos, produtos de limpeza, colas e enzimas, plásticos e suas obras.

A indignação dos empresários do Foro Brasil, na reunião em Shanghai, é mais um alerta sobre o modo como nosso país vem cuidando das suas relações comerciais. Se nosso corpo diplomático pôde trabalhar para, nas 24 horas de estada do presidente Lula naquele país, reativar as exportações de frango e assinar um acordo para exploração de petróleo, também poderia ter ido muito além há muito mais tempo. As oportunidades para realizar negócios com chineses existem e são verificadas pelo empresariado de Mato Grosso que vão à China travar um “corpo-a-corpo”. Em contrapartida, nossa pátria parece que ainda não despertou para agir como “celeiro do mundo”, “país estratégico”, com legítimo poder para negociar, propor, transigir, e, pelo que parece, não aprendeu a “vender” e continua a, apenas, “ser comprado”. Cabe a nós, brasileiros, reavaliar nossas estratégias de promoção comercial, prospecção de mercado e começar construir relações de longo prazo e, de repente, seguir à risca a metáfora dita por Deng Xiaoping: “Pouco importa a cor do gato, o que interessa é que ele cace os ratos”.

Gabriela Fontes é administradora, com especialização em Negócios Internacionais pela FUNCEX e MBA em Marketing pela FGV. É Coordenadora do Centro Internacional de Negócios do Instituto Euvaldo Lodi (IEL-MT) do Sistema FIEMT.

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