A notícia chegou na madrugada. Todos nós já a esperávamos, embora não a desejássemos. Achávamos que mais uma vez ele viria surpreender-nos e, com aquele olhar que era só dele, diria: ainda não foi desta vez. Ascânio Baptista de Carvalho lutou bravamente até o fim. Até o último suspiro.
Ascânio era declaradamente apaixonado por três coisas: sua família, que colocava acima de tudo; Sinop, onde se tornou um dos personagens mais importantes da construção de sua história; e o Rotary Clube, onde chegou a Governador de Distrito por meio do clube que ajudou a fundar na cidade que escolheu para ser sua última morada. E foi justamente a partir dessas três paixões que construiu uma trajetória capaz de marcar profundamente a vida de milhares de pessoas.
Diretor da Colonizadora Sinop por quase cinquenta anos, participou ativamente, como protagonista, da construção da história de Sinop, Cláudia, Vera e Santa Carmem, além de outras tantas cidades no interior do Paraná. Fez isso ao lado de seu irmão, João Pedro Moreira de Carvalho, e de Ênio Pipino, parceiros de uma vida inteira na realização de um sonho que transformou o Nortão de Mato Grosso. Ambos faleceram em junho de 1995, coincidentemente no mesmo dia. Seu Ênio saiu do velório do tio João, em Bebedouro, SP, e foi para o hotel. Não conteve a emoção e faleceu naquela mesma noite. Eu estava lá. Foi como se uma página inteira da história que escreveram juntos se encerrasse naquele dia.
Ao lado de homens que compartilhavam a mesma visão, Ascânio participou de uma das mais extraordinárias experiências de colonização e desenvolvimento do Centro-Oeste brasileiro. Ninguém, aliás, quase ninguém ousaria sonhar, nos anos 80, que Sinop poderia se transformar no que é hoje. Foram tantas lutas, tantas dificuldades, que parecia que Deus estava mesmo nos colocando à prova.
Aqueles que ficaram trouxeram outros tantos, e muitos mais vieram porque sentiam que ali, naquele pedaço de chão, as coisas seriam diferentes e o sucesso de qualquer empreitada transformar-se-ia em realidade. Ascânio acompanhou cada detalhe dessa história. Nada ali acontecia sem antes passar pela sua mesa ou por ouvir sua opinião. Sabia de tudo: do traçado das ruas, da importância das reservas, das melhores localizações, das negociações necessárias para não perder gente que vinha para ficar e ajudar a construir um futuro que, àquela altura, parecia impossível.
Foi convivendo de perto com essa paixão que compreendi a dimensão dos seus sonhos. E foi justamente por causa dela que resolvi embarcar nesse projeto e, em junho de 1983, cheguei em definitivo a Sinop para implantar a Rádio Celeste, que se tornou uma das mais importantes emissoras de rádio de Mato Grosso e teve participação decisiva na história do desenvolvimento da cidade.
Ascânio não tinha inimigos. Por onde passou deixou rastros de carinho, lealdade, amizade e respeito a quem quer que a ele se dirigisse. Sabia ouvir como poucos e não falava sem antes ter certeza de que suas palavras seriam as mais adequadas à situação. Talvez por isso tenha conquistado algo raro na vida: o respeito e a admiração até mesmo daqueles que pensavam diferente dele.
A tudo que se dedicava, fazia com paixão. Tornei-me corinthiano pela sua paixão pelo Timão, que contagiava até quem fosse adversário, sempre de forma respeitosa e amigável. Mas, se o homem público ajudou a construir cidades e instituições, foi dentro de casa que revelou sua maior grandeza.
Seu amor à família serviu-nos de exemplo. Hoje, depois de 50 anos de um casamento feliz com Ieda Lúcia, sua filha mais velha, podemos olhar para trás e constatar que a construção do nosso amor teve muito dos exemplos que ele nos dava a cada dia.
Amou sua mulher, suas três filhas, seus netos e bisnetos como poucos são capazes de fazê-lo. Verdadeiramente um exemplo da fé que dedicava a Deus, presente em todos os momentos da sua vida.
Nossa relação pessoal sempre foi de muita proximidade. Entendíamo-nos pelo olhar e, por ter participado com ele dos momentos mais difíceis da história de Sinop, fazíamos disso um ponto de convergência em nossas conversas, rindo do passado e orgulhando-nos do presente, sempre voltados para o futuro que me resta, onde ele não estará fisicamente presente.
Essa capacidade de acolher e construir amizades era percebida por todos que cruzavam seu caminho. Tenho a mais absoluta convicção de que não há um só pioneiro, entre aqueles que participaram do início de Sinop, que não tenha se sentado à sua mesa e dali saído com a certeza de ter encontrado um amigo. Esse era o Ascânio que conquistava o coração de quem o conhecia.
Ascânio deixa um legado de fé, lealdade, amor e esperança que deve ser lembrado e celebrado por todos que cruzaram seu caminho. Tenho um orgulho danado de ter sido seu genro, de ter compartilhado suas histórias e estórias que deliciosamente contava. Tenho orgulho do seu exemplo de amor à família e às causas em que acreditava. Ascânio não pode ser simplesmente esquecido por aqueles que o conheceram e tampouco ignorado por todos os que vieram depois e nem imaginam quão difícil foi o começo por essas bandas do Nortão.
Seu legado permanecerá entre nós, nas cidades que ajudou a construir, nas pessoas que acolheu, nos exemplos que deixou e, sobretudo, na família que tanto amou. Por isso, esta despedida é apenas física.
Vá em paz, meu sogro querido! Vá com a certeza de que realizou muito mais do que um dia sonhou. Deus está te aguardando com tapete vermelho pelo exemplo de vida que deixou. Vá encontrar aqueles que tanto amou e que o antecederam, e promova no céu a grande festa da sua vida.
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Missão cumprida. Vá em paz, Ascânio
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Ricarte de Freitas Junior - ex-deputado federal, ex-diretor da Rádio Celeste o pioneiro na comunicação em Sinop
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