Opinião

Mais um jeitinho

Os produtores rurais novamente estão buscando um jeitinho à brasileira para fugir da crise do agronegócio imposta pela queda do dólar. É difícil entender como esse pessoal da botina vive em crise. Se o dólar sobe, vem crise. Se baixa, vem crise.
O jeitinho de agora, no entanto, tem outra alegação. Não é o dólar (embora o seja, de fato), mas a crise de agora é a chuva. De novo, há lugar em que a crise foi provocada pelo excesso de chuva. Noutros, pela falta dela.
Com esse pretexto, eles estão recorrendo aos prefeitos para que decretem situação de emergência em seus municípios. Com isso, eles pleiteiam o Seguro-Safra ou ganham melhores condições para renegociar suas dívidas, principalmente procrastinando os pagamentos que deveriam fazer este ano.
Há casos deste tipo do Oiapoque ao Chuí. Em Mato Grosso, segundo informações preliminares não apuradas com rigor, mais de uma dezena de municípios já assentiram aos apelos dos produtores e decretaram suas situações de emergência. E a Defesa Civil e o governo do Estado, claro, vêm homologando todas elas.
Para o município, o grande argumento é o de que a quebra da safra pela falta ou excesso de chuvas provoca um forte impacto na economia local. Afinal, onde o agronegócio, sobretudo a agricultura, é forte, sua cadeia produtiva envolve muitas atividades urbanas.
Ok. Nada contra. Os prefeitos podem fazer esse favor aos produtores sem nenhuma ilegalidade ou imoralidade, e sem nenhum prejuízo financeiro à municipalidade, tampouco administrativo.
Em certo sentido, esse é mesmo o papel do poder público, dando suporte às demandas reais e legítimas do setor produtivo. E neste caso, a decretação da situação de emergência é uma jogada meramente política, para criar uma alternativa de renegociação.
Mas, quando paramos para avaliar que o setor produtivo nunca está satisfeito com os lucros que aufere. Quando levamos em conta, principalmente, que na época das vacas gordas ele pouco se importa com a sociedade, aí começamos a perceber que talvez sua grande preocupação não tenha nada a ver com as de nós outros aqui, que não sabemos diferenciar um pé de mandioca de um pé de mamona.
O produtor brasileiro vive criticando os subsídios americanos ao setor agrícola. Que seriam, no Brasil, essas eternas e permanentes secutirizações e alongamentos das dívidas, muitas vezes até com anistia, dos financiamentos agrícolas? Não seriam subsídios igualmente, só que disfarçados?
O agronegócio precisa aprender a jogar limpo com a sociedade. Essa questão das renegociações das dívidas é apenas um desses casos. Sua relação com o meio ambiente é outra, e ainda mais grave, porque reflete mais diretamente na sociedade. Se há uma lição que as crises políticas da atualidade estão mostrando é: a sociedade não agüenta mais ser enrolada, nem quando, em tese, é para o seu próprio benefício.

Kleber Lima é jornalista em Cuiabá e Consultor de Comunicação da KGM – SOLUÇÕES [email protected]