Opinião

Literamérica: um passo histórico na integração

Sempre quando se fala em integração latino-americana, só se ouve falar em questões econômicas. O Mercosul, por exemplo, considerado o mais importante projeto de política externa do Brasil, apesar das dificuldades, pouco mais de uma década depois, ainda é a ferramenta mais valiosa para a inserção do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai no mercado internacional. No aspecto mais doméstico, destaca-se o esforço do atual Governo em busca de uma saída para o Pacífico. Não obstante as barreiras que o governador Blairo Maggi viu e sentiu in loco, recentemente, durante a realização de uma expedição internacional pela Bolívia, Peru e Chile, esse projeto também reflete uma experiência que, em seus múltiplos aspectos, contempla a integração do próprio Brasil e de Mato Grosso, em uma situação específica, com os demais países sul-americanos.

Nesse aspecto, não configura nenhum exagero afirmar que, a partir desta terça-feira (20), Mato Grosso dá um passo verdadeiramente histórico no processo de integração cultural da América do Sul, com a realização da Literamérica 2005 – Feira Sul-Americana do Livro. Com efeito, entre os dias 20 e 25 de setembro, o Estado entrará no calendário dos grandes eventos literários do mundo, ao levar adiante essa iniciativa. E o que é extremamente importante, segundo os organizadores: tendo em vista a sua própria dimensão, a Feira irá muito além dos limites geográficos de Cuiabá, penetrando em todo o Centro-Oeste, com repercussão dentro e fora do Brasil.

Como tem sido amplamente divulgado, a Literamérica 2005 é uma promoção do Governo do Estado de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e com o apoio da Associação dos Amigos do Livro Mato-grossense (AlimeMTo). A sua principal meta é fomentar a leitura, tornando o acesso ao livro mais democrático, além de buscar apoiar a criação e a produção literárias. Com essa Feira, não resta dúvida, o Governo implantará um marco histórico no setor cultural do Estado, justamente por inserir Mato Grosso num circuito que, hoje, infelizmente, está restrito aos grandes centros brasileiros.

A Literamérica 2005, na verdade, é uma idéia que nasceu na AlimeMTo. Numa entrevista ao site do evento (literamérica.com.br), o presidente da associação, escritor Gabriel de Matos, revela que a feliz descoberta ocorreu quando todos os segmentos da cadeia produtiva do livro regional se reuniu. No esboço original, a idéia era realizar uma Bienal do Livro, mas “depois de umas conversas, sobretudo com o pessoal do Governo do Estado, veio essa idéia de assumir essa posição de Centro da América do Sul e fazer logo uma coisa maior. E nesse momento, mais uma vez, o papel da Secretaria de Cultura do Estado no processo foi vital para enfrentar esse desafio de convidar o continente para falar de livros. E, de certa forma, isso é coerente. Mais do que as ações em nível federal, Mato Grosso vem enfrentando esse inevitável passo futuro de uma unificação sul-americana”.

Não chega a ser novidade o engajamento do secretário de Cultura do Estado, João Carlos Vicente Ferreira, nessa empreitada proposta pelos “amigos do livro”. Afinal, ao longo do tempo em que está no comando da SEC, ele tem se notabilizado por ações que visam sempre ao resgate da identidade cultural de Mato Grosso. Com apoio do governador Blairo Maggi, o secretário tem desempenhado um papel social e político dos mais importantes, na medida em que, com seus projetos e as muitas parcerias, consegue mobilizar os mais diferentes segmentos da sociedade, oferecendo ao próprio Governo as bases para que seja intensificada a presença do Estado como fomentador cultural e incentivador de ações sociais.

Com a Literamérica, o Estado, que produz artes e cultura em grande quantidade, tem a chance, conforme João Carlos, de assumir, definitivamente, a condição de propulsor de uma cultura extremamente rica, que cada vez mais ganha espaço e se projeta de uma maneira muito particular no cenário brasileiro. Mato Grosso precisa, de fato, assumir um papel de catalisador das manifestações culturais e da integração sul-americana, em todos os aspectos, até mesmo por sua privilegiada localização geográfica. Exatamente por isso, o Governo do Estado, tomou a iniciativa de promover a Feira, que será uma ocasião ímpar para a troca de experiências e a busca de mecanismos que estimulem a produção literária de todos os países participantes.

O evento é, também, uma excelente oportunidade para Mato Grosso mudar essa imagem sempre associada à produção agropecuária, ao agronegócio, à Chapada dos Guimarães e ao Pantanal. Definitivamente, a Literamérica 2005 contribuirá para que a imagem do Estado também seja associada, doravante, às artes em geral e à literatura.

Como afirmou o governador Maggi, também em entrevista ao site do Literamérica, todo processo de integração entre povos apresenta várias facetas, passando pelos negócios, pelo comércio bilateral, pelo estabelecimento de ações estratégicas de interesse dos países envolvidos. Mas, qualquer integração só atinge sua plenitude se ocorrer também no campo cultural. “A cultura é um forte laço de aproximação e solidariedade entre os povos, provocando reações em cadeia que resultam numa relação mais próxima e produtiva entre os países”, diz o governador.

Por reunir, durante seis dias, no Centro de Eventos do Pantanal, escritores (entre eles, Carlos Heitor Cony, que assina diariamente uma coluna no jornal “Folha de S. Paulo”), editores, livreiros e produtores culturais brasileiros e do continente, a Literamérica 2005 simplesmente transformará Cuiabá numa referência cultural do Brasil e do livro na América do Sul.

Em tempo: Num País como o Brasil, onde praticamente não há uma campanha de apoio à causa do livro e das letras e onde as bibliotecas são precárias e os leitores simplesmente escassos, há tempos, faz-se necessário o engajamento da mídia em geral (jornais, rádios, tevês, revistas e sites) numa ampla campanha de incentivo à leitura. É o tipo da campanha que não tem cor político-partidária. E não depõe contra a imagem de ninguém.

Antonio de Souza é jornalista, é redator da Oficina do Texto – Marketing & Assessoria de Imprensa.

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