Opinião

Fumaça, máscaras e sangue

Cuiabá viveu dias insuportáveis nos últimos meses. A fumaça e a baixa umidade tornaram nosso ar irrespirável. Parte do problema deveu-se a fenômenos da natureza. Já outra, talvez a mais expressiva, deveu-se comportamentos sociais e (falta de) consciência ambiental.

Claro que não dá simplesmente para colocar a culpa nos governos, sejam eles quais forem, por problemas dessa magnitude. Quer dizer, não dá para culpar apenas os governos do momento. Os fenômenos naturais evidentemente ocorrem em função de um acúmulo histórico de políticas inadequadas para a exploração dos recursos naturais, ou, quando nada, pela ausência de políticas adequadas para tal. Aqui, no Brasil e no mundo. Isso mostra o quão complexo pode ser essa discussão sobre os fenômenos naturais.

Já quanto ao comportamento das pessoas com o meio em que vivem, isso, embora tão complexo quanto a questão anterior, pode ser mais fácil de se modificar. Porque essa mudança pode começar por um indivíduo e ir se multiplicando em proporção geométrica.

Sobre os tipos de atitude, estou impressionado com duas delas. Ou melhor, com quatro delas.

A primeira foi a do fiscal da secretaria de meio ambiente de Cuiabá Luiz Carlos, de repreender um vizinho que ateava fogo em lixo depositado em terreno baldio. Como fiscal, era sua obrigação. Entretanto, ele poderia não ter exercido sua obrigação devido ao fato de o infrator ser seu vizinho: por condescendência ou por receio de criar conflitos.

Luiz Carlos cumpriu seu dever de fiscal, servidor público. Mas, sobretudo cumpriu seu dever de cidadão. Afinal, o fogo gerava problemas para muita gente. Foi assassinado pelo vizinho, por motivo banal, torpe, segundo a delegada que preside o inquérito.

A outra atitude é a do assassino. Um ex-policial que se viu no direito de tirar a vida do vizinho pelo simples fato de ter sido repreendido por cometer uma infração que, no final das contas, se volta contra ele próprio. Além de não ter a consciência e atitude adequada para a exigência dos tempos atuais, James Moreira demonstrou um total desrespeito pela vida humana. De fato, quem não é capaz de respeitar a vida humana, decerto jamais poderá ter consciência ambiental.

O pior de tudo – e aqui entra a terceira atitude – é que o Estado fez vistas grossas para tal crime. O assassino se apresentou, seu advogado aplicou um argumento qualquer, e James está solto nas ruas. Esta atitude do Estado, representado aqui pelo aparato policial e também pelo aparato jurídico, simplesmente diz à sociedade o seguinte: “Não tenham mesmo consciência ambiental; não tenham mesmo respeito às leis; não tenham mesmo respeito à vida, pois nada faremos para assegurar a integridade de quem exigir que as obrigações direitos sejam cumpridos”. Estou envergonhado de ser da mesma espécie do James. Estou envergonhado de pagar os salários dos policiais que não o prenderam. Estou revoltado com o juiz que não determinou a sua prisão.

Finalmente, a quarta atitude me orgulha, assim como a primeira, do James. A vereadora Enelinda Scala fez seu protesto individual e mexeu com a acomodação de seus pares e da sociedade. Colocou sua máscara e foi pra Câmara e depois pra rua. Seu protesto é contra as queimadas, contra a omissão do Estado e contra as atitudes insanas como as do James e daqueles que, tendo o poder para tal, ainda não o colocaram atrás das grades. Esse protesto também é meu.

Kleber Lima é jornalista em Cuiabá