Opinião

Esperança

Vou ser repetitivo, mas o tema de novo é a conjuntura nacional. Já disse daqui deste espaço que o maior problema da crise envolvendo o governo Lula é o estabelecimento da frustração no lugar da esperança, a verdadeira força criadora e transformadora da realidade humana.

Mas não intentei nem fui capaz de formular uma saída para a crise que envergonha em particular a esquerda e seus simpatizantes e a nação brasileira como um todo. Essa formulação veio numa brilhante entrevista concedida pelo bispo emérito Pedro Casaldáliga ao repórter Rodrigo Vargas: a saída para esta crise, diz o chefe da prelazia, é empunharmos cada vez mais alto a bandeira da esperança, desta vez para vencer a decepção.

Mas, para isso, a esquerda tem que fazer um mea culpa. Sem uma autocrítica franca e honesta, verdadeira, não terá condições de encarar o povo brasileiro para propor-lhe a manutenção da esperança.

O governo Lula e o PT erraram em pelo menos duas questões fundamentais. Uma delas, já comentada aqui, foi capitular aos métodos convencionais de governabilidade, na base do toma-lá-dá-cá e da cooptação, em vez do convencimento e da mobilização.

Outro, do mesmo tamanho, foi a delegação de poder feita pelo presidente a determinados agentes políticos menores. O poder é conquistado para ser exercido, não delegado. Compartilhá-lo é possível. Delegação, só de tarefas.

Esses foram os dois erros capitais cometidos pelo governo, pelo PT e pelo presidente Lula. O excesso de poder concedido a Zé Dirceu, e o método escolhido para a relação entre os poderes, geraram a corrupção desenfreada. Ela, no entanto, não pode ser vista como uma prática generalizada do governo e seus aliados.

Entre os milhões de linhas gastas com as denúncias do mensalão ou dos Correios, por exemplo, não há nomes de muita gente do próprio PT, de ninguém do PCdoB e nem de muitos outros membros dos diversos partidos que sustentam o governo.

Portanto, a lição de Casaldáliga é que as saídas possíveis passam pela apuração rigorosa de cada indício de corrupção, e a punição exemplar de cada caso confirmado. Agindo assim poder-se-ia salvar a esperança do povo brasileiro em um governo ético, honesto, diferenciado. Não exatamente do Lula, mas da esquerda brasileira. Senão, o melhor vai ser mesmo baixarmos a cabeça e nos envergonharmos toda vez que alguém nos perguntar: “E o seu Lula, hein?!”.

Kleber Lima é jornalista em Cuiabá