Opinião

Dois anos depois, é preciso relembrar Antônio Mulato

Neste mês de setembro completa-se dois anos de morte de Antônio Benedito da Conceição, o seu Antônio Mulato. Ele faleceu em 15 de setembro de 2018 aos 113 anos. O mais velho quilombola do Brasil era símbolo do quilombo de Mata Cavalo, localizado no município de Nossa Senhora do Livramento, em Mato Grosso.

Aos 113 anos, Mulato era ativo, cheio de garra e gingado. Adorava dançar e mostrar força apesar da idade. De herança deixou feitos, sabedoria e uma família imensa. “Seu Mulato”, como era carinhosamente chamado, teve 18 filhos, sendo 13 vivos, e 38 netos e mais de 40 bisnetos.

Ele era o patrono da Lavagem da Escadaria do Rosário e São Benedito, evento coordenado por membros de religiões de matriz africana. Os impressionantes anos vividos não o impediram de ser o mediador da gigante família e das diversas comunidades do quilombo de Mata Cavalo, localizado em Nossa Senhora do Livramento. Não o impediu de dançar durante a Lavagem das Escadarias na edição de 2018. Aliás, ele dançando era cena comum, mesmo que por alguns segundos. Das dores, ele não costumava reclamar, tinha orgulho de sua longevidade.

“Para ele, o grande segredo da vida é a alegria. Era também símbolo de resistência e se importava muito com a memória cultural de seu povo. Foi uma importante liderança na luta pela regularização do quilombo e na luta contra o preconceito”, explica Alair Fernando Neves, membro da comissão organizadora da Lavagem das Escadarias. “Jamais será esquecido pela comissão organizadora da ‘Lavagem’. Seus familiares continuarão a representá-lo no evento”, completou.

O quilombo ainda não foi regularizado, contudo já recebeu da Fundação Cultural Palmares o certificado de Comunidade Remanescente, um respeitável símbolo em favor da identidade étnica do território.

No mês de lembrança de sua morte, é importante relembrar seus feitos. Mulato lutou pela implantação de uma sala de aula no quilombo na década de 40. A primeira sala tinha teto coberto com palhas de babaçu e o piso era de chão batido. Enfrentou o preconceito e a intolerância. O quilombo de Mata Cavalo é o único em Mato Grosso que conta com uma escola com 400 alunos e construída com recursos do Governo Federal, o que ocorreu em 2012.

Relembrar “Seu Mulato” é também relembrar é preservar a cultura e não esquecer a importância de se regularizar as terras herdadas de seus ancestrais.

Simone Alves, jornalista em Cuiabá (texto alusivo aos dois anos de morte de Antônio Mulato - foto: reprodução/arquivo)