Opinião

A melhor maneira de dizer

O caminho pela contramão. Esse foi o título de um artigo publicado em vários jornais de Mato Grosso, no ano de 1998, o penúltimo do meu mandato no Senado, quando eu defendia a reativação do Programa Nacional do Álcool, por considerar um retrocesso o abandono de tão importante política de
desenvolvimento para o País.

O momento, agora, não poderia ser mais oportuno. Recentemente, 141 países assinaram o Protocolo de Kyoto, que, mais do que uma mera convenção
diplomática, pode ser definido como um instrumento que deixa para a história um registro do dia em que o homem cumpriu o seu destino pela salvação planeta.

Por culpa de sua própria insensatez, o ser humano vive hoje o seu maior desafio, que é preservar o meio ambiente para evitar o superaquecimento global, o que acarretará em catástrofe, conforme prevêem cientistas e ambientalistas.

E o Brasil poderá ser um dos grandes beneficiados com o acordo diplomático promovido pela Organização das Nações Unidas, que culminou com o Protocolo de Kyoto, em adotar regras para evitar a emissão de gases poluentes
causadores do “efeito estufa”.

Exatamente por envolver as economias dos países signatários, o Protocolo de Kyoto não corre o risco de ser descumprido. Com o Brasil em franco desenvolvimento, e sem ser obrigado a reduzir produção, é chegado o
momento, portanto, de o governo federal reativar o Proálcool, de eficiência reconhecida no mundo inteiro.

A reativação do Proálcool foi uma das muitas promessas de campanha do candidato Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência – no poder, ficou só no discurso. Também, a crítica do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues,
de que os governos anteriores não tiveram “visão estratégica” sobre o Proálcool, e que “cederam a interesses menores”, ficou sem efeito diante da posição do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que descartou a volta
do Programa.

Lançado em 1975 com tecnologia genuinamente brasileira, o Proálcool custou ao contribuinte brasileiro US$ 12 bilhões. Nos anos 80 o Programa viveu seu grande momento, quando 90% de todos os carros produzidos no País eram
movidos pelo novo combustível.

Temos, na utilização do álcool, o benefício das vantagens ambientais e ainda uma menor dependência junto aos países exportadores de petróleo.
Assim eu me manifestava da tribuna do Senado, por entender que o Brasil caminha pela contramão da história, ao abandonar o Proálcool, enquanto outros países se empenham em desenvolver tecnologia para combustível
alternativo.

A revitalização do Proálcool se impõe não apenas pela economia de divisas ou pela geração de emprego. Impõe-se, sobretudo, por sua função estratégica de proporcionar ao País um combustível limpo e perene, e nos
reservar um porto seguro diante da escassez anunciada do petróleo na conjuntura internacional.

É sabido que o álcool anidro desempenha excelente papel em sua mistura à gasolina, por evitar o uso do chumbo tetraetila, substância poluente e altamente perigosa, que é utilizada para aumentar o poder de octanagem da
gasolina.

E o álcool hidratado substitui integralmente a gasolina com a vantagem de evitar a emissão de poluentes diversos, entre eles o dióxido de carbono que provoca o “efeito estufa”, uma preocupação dos ambientalistas, que resultou no Protocolo de Kyoto.

Hoje, o Brasil é o maior exportador de álcool do mundo e, paradoxalmente, temos uma pequena frota de automóveis movidos com este combustível. A produção do álcool gera emprego e renda. O setor sucroalcooleiro emprega
milhares de trabalhadores no campo e nas agroindústrias. A produção de automóveis pode ter um novo impulso, a exemplo dos anos 80.

Estão aí, portanto, argumentos de sobra para a revitalização do Proálcool, talvez o maior e mais ousado plano de investimento do mundo dependente de
reservas petrolíferas.

Para lembrar José Martí, político cubano dos mais emblemáticos da América Latina, na luta contra o domínio colonial e à dependência, “a melhor maneira de dizer, é fazer!” O Protocolo de Kyoto está, ainda, aquém das
reais necessidades do planeta, mas já é um bom começo. Saiu das promessas de boas intenções para compromissos, de fato. Que cada um faça a sua parte!

Júlio Campos é conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso. Governou o Estado (1983/87), foi senador pelo PFL (1991/99).