Opinião

A hora do enfrentamento

Duas situações distintas ocorridas esta semana, mostram que começou finalmente uma reação institucional aos arroubos antidemocráticos de Jair Bolsonaro, seus ministros, deputados da base e apoiadores. A primeira ação veio da Suprema Corte brasileira. Autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, a Polícia Federal cumpriu mandados judiciais contra empresários, blogueiros e deputados ligados ao presidente, por produção e disseminação de notícias falsas. 
O ministro também determinou a quebra de sigilo bancário e telefônico dos acusados, dentro do inquérito das fake news. A investigação apura as ações de uma rede conhecida como ‘gabinete do ódio’, que dissemina notícias falsas e ameaças a membros do STF e governadores de oposição. Com atuação decisiva na própria eleição de Bolsonaro através de perfis falsos (‘robôs’), estes grupos usam as redes sociais como meio de propagação de discursos racistas, discriminatórios, de ódio ou contra a democracia.

A operação deflagrada pelo STF irritou Bolsonaro, que teme que as investigações alcancem o chamado núcleo familiar, formado pelos filhos dele.  Outro temor é que as apurações que remetem às eleições 2018 sejam usadas em ações que pedem a cassação do mandato de Bolsonaro e do seu vice, ainda pendentes no Tribunal Superior Eleitoral. Nesse quesito, Bolsonaro recebeu o apoio do Procurador- Geral da República, nomeado por ele à revelia da lista tríplice votada pelos membros do MPF. Augusto Aras pediu o arquivamento do inquérito das fake news. Já passou da hora de retirar do presidente a prerrogativa de indicar o chefe do Ministério Público, que deixa de ter a necessária isenção.

A segunda evidência do enfrentamento democrático veio da união editorial dos três principais jornais do país, dos dois maiores portais de conteúdo digital e da rede de televisão de maior audiência no país. Diante dos ataques sistemáticos de Bolsonaro à imprensa e das agressões verbais e físicas a jornalistas, estimuladas pelo presidente, os veículos de comunicação suspenderam a cobertura na saída do Palácio da Alvorada. Motivo: absoluta falta de segurança para os profissionais.
A decisão de se retirarem do circo de horrores do cercadinho da presidência, mostrou uma união sem precedentes dos gigantes da grande imprensa. Hoje, a imprensa constitui uma força contundente na fiscalização do desgoverno Bolsonaro, mais contundente e efetiva até que a própria oposição representada pelos partidos de esquerda.

A emissora de TV e os grandes jornais mostraram sua força na análise da fatídica reunião ministerial do dia 22 de abril. A grande imprensa expôs os detalhes sórdidos da intimidade do governo Bolsonaro e revelou as acusações autoritárias e antidemocráticas contra a própria imprensa, governadores, prefeitos e o próprio STF, órgão máximo do Poder Judiciário. A imprensa também foi implacável na apresentação de evidências que confirmam as acusações do ex-ministro Moro sobre a interferência indevida do presidente na Polícia Federal. Amparada nas falas e imagens, a imprensa desmontou todos os desmentidos oficiais.

A liberação dos vídeos mostrou também os delírios e as afrontas dos ministros da Educação, Meio Ambiente, Economia e Direitos Humanos. Weintraub, da deseducação, chegou a pedir a prisão dos “vagabundos do STF”. Vai ter que se explicar ao Supremo, decidiu o ministro Alexandre Moraes, e pode cair a qualquer momento pelo conjunto negativo de sua obra, antes mesmo de qualquer responsabilização judicial.

Além das sucessivas crises políticas geradas pelo desequilíbrio do presidente, a crise sanitária ajuda a alinhar os principais jornais e TVs brasileiros. A cobertura crítica que mostra o avanço das mortes causadas pela Covid-19 no Brasil, evidencia a desorganização e desorientação do governo no trato da pandemia. Dois ministros da Saúde já deixaram o cargo pela impossibilidade de conviver com um presidente que contraria os protocolos da OMS, é contra o isolamento social e desvaloriza o papel da ciência.

A reação da grande imprensa se contrapõe ao discurso bolsonarista-olavista, de destruição das estruturas políticas, econômicas, sociais, culturais e ambientais. Ela trabalha para conter o avanço da extrema direita, que se aproveitou do descrédito da esquerda brasileira para chegar ao poder. Este segmento despreza a política tradicional, os princípios democráticos, os direitos humanos e valores republicanos.

A grande imprensa, como parte ativa da sociedade organizada, não compactua com estas propostas, até porque vão contra a sua própria existência, como sinalizam os ataques sistemáticos à imprensa e a jornalistas. Para a grande imprensa, não há opção fora do enfrentamento, até para mostrar que pode superar as dificuldades impostas pelas novas tecnologias digitais, que lhe retiraram o monopólio da informação.

Assim como a disseminação de notícias falsas nas redes sociais, as agressões à imprensa e jornalistas exigem reações institucionais. Para todos estes crimes há o rigor da lei e o repúdio apenas não basta. Os agressores são identificáveis e devem responder criminalmente, bem como os agressores de profissionais da saúde ou quem defende a ditadura ou o fechamento do Congresso e do STF.

A imprensa continuará investigando a corrupção que envolve os filhos do presidente, a rachadinha, Queiroz, o assassinato de Marielle, as fake news, as milícias, o toma lá, dá cá com o Centrão e tudo de podre que cerca o presidente. A missão da imprensa será cumprida, custe o que custar, apurando os fatos, checando informações, assegurando o contraditório e publicando tudo o que for relevante. Isso não vai mudar.

Mas o enfrentamento ainda exigirá muito empenho das forças democráticas. Em reação às decisões do ministro Alexandre Moraes, Bolsonaro afirmou: “ordens absurdas não se cumprem. E nós temos que botar um limite nessas questões”. A queda de braço com o Supremo ainda terá novos desdobramentos e a sociedade organizada precisa estar muito vigilante, pois está em jogo a própria sobrevivência do sistema democrático.

Eduardo Ricci é jornalista em Mato Grosso