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A eficácia da Palavra e a qualidade da terra

Por Pe. Roberto Jerônimo Gottardo,SJ - pároco Paróquia Santo Antonio - Sinop
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A liturgia do 15° Domingo do Tempo Comum “A” nos brindou com a Parábola do Semeador (cf. Mt 13,1-23). A brilhante reflexão do padre e psicanalista, Fábio Marinho, muito me edificou (veja aqui). Julguei oportuno fazer recortes fazendo livres adaptações. O poder misterioso da semente tem o protagonismo no evangelho porque é próprio Deus quem semeia (cf. Mt 13,1-23), mas para Jesus importa mais a qualidade do solo, isto é, a tipologia do terreno que nós somos. Na dinâmica do Reino, o problema nunca foi a semente, mas a disposição do coração (terreno) para acolher a palavra e produzir frutos.  

Segundo Marinho, há uma frase de Santo Agostinho que parece escrita para hoje: Timeo Deus transeuntem et non revertentem (“tenho medo do Deus que passa e não volta mais”). Não porque Deus deixe de amar, mas porque a graça exige uma resposta e, muitas vezes estamos dormindo. Deus passa, o semeador passa, a oportunidade passa, o Reino passa diante de nós… 

O profeta Isaías, para enfatizar a eficácia da palavra de Deus, faz alusão a chuva: “Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente… assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia” (cf. Is 55,10-11). Há um detalhe extraordinário nessa luminosa analogia. O profeta não compara a palavra com fenômenos retumbantes da natureza, mas à chuva que irriga e fecunda a terra sem qualquer sinal de violência. A chuva não quer se apropriar da terra, mas a penetra lentamente porque respeita o tempo e a dinâmica da semente.

A graça de Deus age assim: é discreta, age em silêncio e é avessa à espetáculo. E é exatamente isso que nosso Senhor revela no Evangelho, na parábola do semeador. Por que o evangelista apresenta um agricultor que parece perder tempo e desperdiçar sementes em terreno hostis? Ele sai lançando sementes pelo caminho batido, no meio das pedras, no meio dos espinhos, na terra boa de modo aleatório.

Nenhum agricultor sensato faria isso. Mas Deus faz, porque o amor verdadeiro não vive de cálculos e não faz discriminações. Deus acredita e aposta até nos terrenos mais improváveis. Ele é paciente e perseverante e continua semeando até mesmo em quem já desistiu de si mesmo. É nem conhecido o princípio clássico na missiologia: “O Espírito chega antes do missionário”. Significa que o Espírito Santo já está agindo nos corações, culturas e comunidades antes mesmo da chegada humana. O missionário atua apenas como um colaborador do Espírito, que é o verdadeiro protagonista da missão.  

Há uma questão que brota espontânea: Como compreender o fato de tantas pessoas frequentarem igrejas, escutarem a Palavra e continuarem tais e quais? Será que a Palavra (semente) está falhando? Jesus responde que não. A palavra sempre realiza sua intencionalidade mesmo quando parece rejeitada, porque ela sempre revela as intenções do coração. A palavra consola, mas também denuncia. A palavra salva, mas também desmascara. Ela revela aquilo que existe dentro de nós. Jesus não desperdiça tempo para analisar a semente, ele interpreta as disposições do coração.  

O “como” cada fiel escuta a palavra é algo fugidio. A realidade nunca é captada de modo puro e neutro. Todos nós escutamos a partir dos nossos aprioris, dos nossos medos, traumas, fantasias, mecanismos de defesa, identificações, ambiguidades… Todos nós escutamos a mesma palavra, mas ninguém a recebe da mesma maneira, porque cada ouvinte possui uma história e cada pessoa possui um terreno específico, com expectativas e sensibilidades diferentes. Vejamos, agora, ainda que de modo suscinto, algumas características dos terrenos:  

a) A terra batida, ou seja, um caminho compactado, endurecido e impermeável. Quantas pessoas vivem assim? Escutam, mas nada acontece. E não é porque Deus fale pouco e/ou em línguas estranhas, mas porque elas já decidiram tudo antes de escutar. O Senhor explica: “O coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos, para não ver com os olhos, nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração, de modo que se convertam e eu os cure”. São pessoas orgulhosas e o orgulho produz impermeabilidade espiritual. Nada surpreende, nada emociona e nada transforma. 

b) O terreno pedregoso. Esse segundo terreno escuta a palavra com euforia, mas não cria raízes. A semente brota rapidamente, só que as raízes são impedidas de penetrar. Quando chega a quentura do sol (crise) murcham e morre. É a espiritualidade fundada nas emoções. Muita euforia e pouca profundidade! É o que acontece com muitas pessoas que fazem encontros esfuziantes no fim de semana e na segunda-feira já começa a claudicar. Efetivamente, vivemos imersos numa cultura afeita às experiências emocionais de Deus, mas alérgicos ao compromisso. muitos querem sentir Deus, mas poucos querem permanecer em Deus. A emoção inicia e tem potencial para despertar, mas somente a decisão sustenta a caminhada de fé. 

c) Os espinhos. Jesus explicita a natureza dos espinhos: as preocupações mundanas, a ansiedade, os negócios, a sedução das riquezas, os fetiches do deus mercado, os modismos, etc. Curiosamente, Jesus não fala de pecados escandalosos. Ele faz alusão às distrações do dia a dia. Há pessoas que não abandonam Deus, mas estão ocupadas demais. Padre Marinho é cirúrgico: “Vivemos cercados de notificações, preocupados com as postagens alheias, mas incapazes de escutar. Nunca houve tanto ruído e sonoridade no mundo, mas nunca houve tanta solidão; nunca houve tanta informação e tão pouca sabedoria”. Diante de tanta informação, tanta gente não dá conta de pensar, vivem no automático. “Os espinhos modernos têm Wi-Fi. Eles entram pelos olhos, pelos algoritmos, pelas comparações, pela necessidade constante de aprovação, pela necessidade de rebaixar os outros, de atacar os outros. Aquilo que nós alimentamos diariamente acaba sufocando aquilo que nós desejamos eternamente”.

d) A terra boa indicaum coração disponível, generoso e receptivo. Jesus nunca diz que a terra boa é perfeita, mas que é bela e boa. Ele mostra que essa terra é e permanece fecunda e fértil. São esses terrenos que Deus procura. Jesus não busca pessoas perfeitas, mas pessoas disponíveis para “em tudo amar e servir”. Os santos/as de Deus não são as pessoas infalíveis e imunes às tentações, mas aquelas pessoas que não permitem que o coração se petrifique.

Na arguta percepção do Pe Fábio, São Paulo amplia e aprofunda o conteúdo da parábola contada por Jesus no evangelho. “Toda a criação está esperando ansiosamente o momento de se revelarem os filhos de Deus” (cf. Rom 8,19). A criação está grávida do Reino, aguardando “a adoção filial e a libertação para o nosso corpo”. Toda existência deseja florescer. A criação inteira aguarda o advento de homens e mulheres capazes de viver como filhos/as de Deus. entretanto, quando o homem endurece o coração, sofre ele e toda a criação. Quando o homem se converte, toda a criação respira e festeja. A santidade nunca é um privilégio individual, ela possui consequências cósmicas.

Os padres da Igreja afirmavam que Deus escreveu dois livros originários: a Escritura e a Natureza. Quem aprende a ler um compreende melhor o outro. Por isso Jesus conta parábolas, porque parábolas não entregam respostas, elas ensejam perguntas e fazem pensar. Ela tem o quinhão de desmontar narrativas superficiais e doces ilusões. Jesus não pergunta: “Conseguiram entender a parábola do semeador?”. O foco de Jesus é outro: “Reconheceram-se na história que eu contei?”. A conversão começa quando enxotamos os preconceitos e deixamos de interpretar os outros para analisar a nós mesmos. À luz da própria história fazer um exame: que tipo de terra o meu coração se tornou? Uma terra endurecida pelas decepções e frustrações acumuladas, superficial como são as emoções, sufocada pelas preocupações e/ou vícios, ou uma terra boa e disponível para que Deus continue semeando.

O profeta Isaías garantiu que a Palavra nunca é em vã: “assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia”. No evangelho, Jesus mostra que toda vez que Deus fala, alguma coisa acontece. Mesmo quando nós resistimos, mesmo quando nós fugimos, mesmo quando endurecemos a cerviz; Deus trabalha em silêncio como a chuva que cai na terra para fecundá-la. Um dia dar-nos-emos conta de que aquilo que parecia apenas uma sementinha desprezível transformou toda a paisagem da alma. E talvez seja esse o maior milagre de Deus. “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce” (F. Pessoa). 

Que Deus não encontre apenas ouvintes curiosos da Palavra e, quiçá, ávidos por aprender as coisas do Reino, mas encontre em nós terra boa, uma terra bela, uma terra que produza saborosos frutos, e não apenas árvores com belas folhagens. “De palavras estamos cheios, mas de obras vazios; por este motivo nos amaldiçoa o Senhor, como amaldiçoou a figueira em que não encontrou fruto, mas somente folhas” (Santo Antônio). 

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