Cultura Geral

Diretor sinopense vence prêmio do Brasil CineMundi com filme sobre garimpo na região Norte

Com uma produção que aborda um tema forte na região Norte de Mato Grosso, mas  pouco visto e representado, o diretor sinopense Madiano Marcheti, com o projeto ‘Mãe de Ouro’, foi o vencedor da categoria Projeto em Desenvolvimento e Projeto em Produção do 11º Brasil CineMundi, evento realizado no formato on-line durante o festival CineBH, na última segunda-feira. O projeto superou outros nove e foi escolhido pelo júri oficial, formado por representantes do Brasil, Uruguai e Portugal.

Além da categoria de projeto em desenvolvimento, a produção de Madiano conquistou vaga para participar do Nuevas Miradas, fórum de coprodução que acontecerá na Cuba, em formato on-line entre os dias 7 e 11 de dezembro. Entre os prêmios inclusos no CineMundi estão empréstimo de câmera digital SI-2K ou Black Magic e acessórios por quatro semanas, R$ 15 mil em serviços de finalização, R$ 15 mil em serviços de pós-produção, tradução de roteiros para longa-metragem – português para francês e bolsa de estudos composta por três cursos on-line do diretor de fotografia Alziro Barbosa.

Mãe de Ouro é um projeto que ainda está nascendo, com o desenvolvimento do roteiro, mas que já desperta grande impacto. A história se passa em uma pequena cidade na região Norte do Estado, e tem o contexto de um garimpo ilegal como plano de fundo, que é instalado em um morro ao lado de um pequeno vilarejo, trazendo pessoas de diversos pontos do país para o local.

O enredo dá vida a Jaci, professora, entrando na 3ª idade e que vive ali. Com a instalação do garimpo, o lugar calmo, tranquilo e com paz, passa a se transformar e ser cenário de destruição. A trama, com tom de suspense e realismo mágico, fica ainda mais intensa quando os sonhos da professora ganham vida e começam a se tornar reais. “Ela passa a ter sonhos estranhos, que esses garimpeiros são perseguidos e mortos em cima do morro. De fato, essas mortes começam acontecer, então o filme é todo sobre essa questão dos sonhos, que vão aos pouco se tornando realidade”, explicou, em entrevista ao Só Notícias, Madiano Marcheti.

A inspiração para a história, que em partes se confunde com situações da vida real, veio de uma lenda brasileira e um mito grego. “Há uma lenda do Centro-oeste chamada Mãe de Ouro, que conta sobre uma mulher que se transforma numa bola de fogo e paira sobre a floresta, protegendo jazidas de ouro para que não encontrem esses minérios e ao mesmo tempo protege mulheres que são agredidas pelos maridos. Já o mito Cassandra trás uma mulher que tinha o dom da premunição, mas foi amaldiçoada para que ninguém acreditasse nela. É a combinação desses dois universos, têm muitas questões contemporâneas, sobre devastação da natureza”, destacou.

Outra fonte de criação para o diretor é o anseio de levar para todos os cantos situações sobre o lugar que nasceu e cresceu. “É muito importante, eu nasci aí, cresci em Sinop e eu quero contar histórias desse lugar. Saí de Sinop com 18 anos e fui para Cuiabá estudar Rádio e Televisão. Depois fui estudar Cinema no Rio de Janeiro em seguida fazer o primeiro filme, no Mato Grosso do Sul. Meu interesse é contar histórias dessa região, onde eu cresci, fui criado, as minhas ligações estão completamente nesse lugar”, salientou.

“Acho que aí também é um lugar pouco representado no cinema brasileiro num modo geral. Fazer cinema tem uma importância enorme porque eu posso falar um pouco do lugar que eu venho e sobre as questões que são muito importantes, não só para as pessoas que vivem aí, mas estamos dentro de um país enorme, cheio de contradições, cada região tem uma complexidade enorme e precisamos falar de todas”, reforçou.

A premiação, mesmo com o filme ainda nascendo, é motivo de inspiração e de que o projeto está tomando os trilhos certos, conta Madiano. “Ficamos surpresos, porque o filme está nascendo, é uma história no início, mas foi muito bom porque de alguma forma ajuda a dar uma esperança de que vamos conseguir produzir, porque estávamos bastante desesperançosos em conseguir financiamento dentro do país e isso vai ajudar ter visibilidade para conseguirmos parceiros internacionais e também apoio no Brasil”, ressaltou.

“Nesse momento é muito importante, porque o Brasil está sofrendo muito na área da cultura desde que o novo governo assumiu, não se tem praticamente feito mais filmes no Brasil porque a Ancine, o Fundo Setorial estão parados, e não há previsão de quando vai voltar. Temos o Fundo Setorial que estava funcionando bem, o país estava produzindo muito, os filmes estavam saindo, mas desde que o governo entrou a situação ficou feia para o cinema. Não tem saído editais, os filmes estão parados e tudo está suspenso, então esses fóruns são espaços importantes para a gente tentar conseguir parceria internacional e fazer filmes. Precisamos desse esforço de sair, para conseguir dinheiro lá fora e vir filmar aqui”, lamentou.

Este também é o segundo filme de Madiano. O primeiro, ‘Madalena’, foi filmado recentemente no Mato Grosso do Sul e  estreará no ano que vem. O lançamento deve acontecer num festival internacional, que será divulgado em dezembro.

Ao todo, o CineMundi promoveu 228 encontros de coprodução e recebeu 30 profissionais do audiovisual de 17 países, prestando assistência e realizando encontros com 23 projetos brasileiros, que apresentaram suas ideias e que estão na busca de contatos para formar parcerias com outros países.

Só Notícias/Luan Cordeiro (foto: arquivo pessoal)