A pesquisadora cacerense, Gabriela Elidio, bióloga formada pela Unemat e mestranda no prestigioso Instituto Oceanográfico da USP (IO-USP), é uma das integrantes do Programa Antártico Brasileiro (Proantar). Ela trabalha no laboratório ExtreMar e sua pesquisa busca preencher lacunas sobre como micro-organismos marinhos são transportados pelo vento, na forma de bioaerossóis, até o interior do continente antártico. “Estudamos como eles sobrevivem a esse transporte e como eventos climáticos extremos influenciam essa dispersão”, explica.
Gabriela contou como foi a trajetória saindo da Biologia na Unemat até a Antártica. “Durante a graduação na Unemat, eu era muito inquieta. Vivia mandando e-mails para professores de outras universidades buscando estágios. Minha história com a biologia polar começou na pandemia, assistindo a uma palestra no YouTube da Amanda Bendia (hoje minha orientadora) organizada pela UNEMAT. Quando ela falou sobre um vulcão ativo na Antártica, eu me apaixonei. Para mim, parecia ficção científica”, afirmou.
Segundo ela, no final da graduação, decidiu se inscrever no mestrado do IOUSP. “Estava finalizando o TCC e tinha menos de dois meses para estudar oceanografia biológica, que não era o foco do meu curso. Fui de ônibus de Cáceres para São Paulo com o ID Jovem para fazer a prova. Quando vi meu nome na lista de aprovados, percebi que o sonho estava se tornando real. Já escutei de pessoas próximas que eu sonhava alto demais. Morando no interior, essas oportunidades parecem distantes e a gente acaba achando que não é para nós. Sendo mulher, isso pesa ainda mais, pois a pesquisa polar historicamente foi muito masculina. Quando me vejo na Antártica hoje, sei que não é só sobre mim. É sobre mostrar que é possível. Recebo mensagens de meninas dizendo que se sentem inspiradas, e isso prova que esses exemplos fazem toda a diferença para que mais meninas sigam na ciência”, destacou.
Ela também contou um pouco da rotina de coleta em um navio da Marinha em águas tão geladas da Antártica. “Estamos a bordo do navio Almirante Maximiano. Coletamos ar filtrado e água do mar ao longo da costa da Península Antártica. A rotina não tem moleza: as estações de coleta de água ocorrem a cada duas horas, o dia todo. Eu trabalho no turno da madrugada, então lido com o sono e o frio intenso. Usamos um equipamento chamado Rosette, que desce garrafas a profundidades imensas — chegamos a coletar a 2.000 metros. O maior desafio é o frio e o vento; parece que estamos dentro de uma geladeira”.
Gabriela fez o Treinamento Pré-Antártico (TPA) na Ilha da Marambaia (RJ). “Fui da equipe de acampamento, treinada por alpinistas do Proantar. Simulamos uma semana de acampamento real: aprendemos a montar barracas, preparar comida e lidar com a falta de banho, usando apenas lenço umedecido. Fizemos natação utilitária, salto de plataforma e voos de helicóptero. O nível de organização para manter a Estação Comandante Ferraz e os navios é sensacional. É muita gente e muitas instituições trabalhando juntas”.
Sobre o desafio de viver no isolamento e os momentos marcantes, Gabriela afirma lidar bem com o isolamento, contando com o suporte de roupas térmicas essenciais e momentos de descontração com a tripulação, como sessões de cinema e idas à academia do navio. Ela destaca que a convivência gentil entre pesquisadores e militares, unidos pelos mesmos desafios, torna a experiência mais leve. No entanto, nada superou a emoção de contemplar a paisagem antártica pela primeira vez: em um raro dia de sol, a combinação monumental de montanhas, neve e icebergs revelou um cenário tão surreal que, segundo a bióloga, mal parecia de verdade.
Após o retorno da expedição, os próximos passos do mestrado de Gabriela no IOUSP serão focados na análise laboratorial de sedimentos coletados no mar profundo da Antártica durante a Expedição Internacional ICCE 2024–2025. O objetivo central de sua pesquisa é mapear a biodiversidade microbiana que habita o leito oceânico, identificando não apenas quais micro-organismos vivem nessas condições extremas, mas também quais funções metabólicas desempenham e como influenciam os processos ecológicos fundamentais do ecossistema marinho antártico.
Para os estudantes de biologia que almejam trilhar caminhos em ambientes extremos, Gabriela é enfática ao aconselhar que a exploração da universidade comece o quanto antes, indo muito além da sala de aula através da busca ativa por laboratórios e iniciações científicas. Ela incentiva os alunos a perderem o medo de “perturbar” professores e pesquisadores com e-mails e questionamentos, ressaltando que, embora o percurso seja marcado por inseguranças e mudanças de planos, o acolhimento desses sentimentos faz parte do processo. Para a bióloga, a chave do sucesso reside na persistência e na confiança no próprio potencial, mantendo o foco nos sonhos mesmo quando os obstáculos parecerem instransponíveis.
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