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Cuiabano que sobreviveu a incêndio no CT do Flamengo diz que trocou de quarto na noite anterior

“Na noite anterior ao incêndio senti em pedir para mudar de quarto”. A frase é uma lembrança do garoto Kennedy Lucas, 14, que conseguiu sair ileso do incêndio no Centro de Treinamento (CT) do Flamengo, que causou a morte de 10 pessoas, no dia 8 de fevereiro.

O menino, que ainda segue firme pelo sonho de se tornar um grande jogador de futebol, contou que os últimos dias não têm sido fáceis, já que os garotos que morreram, além de companheiros de treinos, eram colegas de quartos e amigos. Kennedy lembrou que eram 6 garotos em cada quarto. Ele estava há 8 meses no CT e sempre dormiu no mesmo lugar. Porém, na noite de quinta-feira (7), decidiu pedir para trocar de cômodo com uma pessoa.

Logo, ele pegou os itens pessoais e foi para outro espaço do alojamento. Como de costume, Kennedy afirmou que tomou banho, escovou os dentes, ajeitou a cama, brincou com alguns colegas e se deitou. Rapidamente, segundo ele, pegou no sono e acordou com um dos amigos gritando.  “Acorda, acorda, Kennedy. Kennedy, acorda, está pegando fogo”.

Sonolento, o lateral esquerdo acordou, sentiu o cheiro da fumaça e saiu correndo sem chances de pegar nada. “Depois vi só as chamas e ainda confuso. Parecia um sonho, mas não era, uma triste realidade. Perdi roupas, documentos pessoais e o pior perdi amigos, aqueles que lutavam em busca de um mesmo sonho: representar o flamengo nos clássicos do mundial”, detalhou.

Kennedy afirmou, que mesmo diante do acontecido, em nenhum momento pensou em desistir e também nunca se arrependeu em ter ido ao local e, claro, quando o time chamá-lo para retornar ao treinamento, rapidamente fará as malas.

“Minha vida é um milagre. Enfrento momentos difíceis. Está melhorando a cada dia. Mas, meu incentivo vem de Deus. Ele me ensina que nunca podemos desistir dos sonhos e desacreditar de nós mesmos. Meus pais também estão bem mais tranquilos porque o pior para eles passou. No entanto, nós todos estamos em uma corrente para dar força à família daqueles que se foram. É importante deixar claro também que o Flamengo está nos dando o maior apoio com tratamentos psicológicos e assistência social”, afirmou.

Kennedy nasceu no bairro Praeirinho, em Cuiabá, e foi aprovado em uma avaliação realizada em agosto do ano passado. O sonho começou aos 12 anos quando ele começou as aulinhas no mini estádio João Faustino Lima. Lá, participou de todos os projetos e ganhou campeonatos até que o primeiro teste foi realizado no Desportivo Brasil.

“Foram 120 meninos, mas acabei voltando pra Cuiabá e continuei lutando. Depois fui para Brasilis Futebol Clube e fiquei por lá 4 meses até que fui para o Flamengo onde completou 8 meses”, relembrou.

No Ninho do Urubu, Kennedy contou que no período da manhã treinava, à tarde ia para a escola e no período da noite conversava, brincava e descansava com os amigos. “Tudo parecia um sonho. Mas, de repente a ficha caía e lembrávamos. Nossa estamos aqui mesmo. Então eu não tenho nada a reclamar só tenho a agradecer todas as pessoas que me ajudaram, as doações que recebi e aos meus amigos do Praeirinho que me abraçaram tanto quando cheguei. Foi um momento único, pois me fez relembrar da infância e das nossas pescarias no Rio Cuiabá. Comi muito peixe do Rio Cuiabá e vou seguir em frente. Lembrar sempre da onde sai porque sei que meus amigos gostariam que eu me fortificasse”, finalizou.

Em nota divulgada na última sexta-feira, a prefeitura do Rio de Janeiro revelou que interditou o CT do Flamengo, conhecido como Ninho do Urubu, em outubro de 2017 e multou o clube 30 vezes naquele ano por falta de alvará de funcionamento. Ainda assim, segundo a Prefeitura do Rio, o Rubro-Negro reabriu o centro de treinamento em 2017.

Além dos dez jogadores mortos, outros três ficaram feridos.

Só Notícias/Gazeta Digital