Educação

Professora da Unemat coordena estudo mundial para prevenir hanseníase; 4 municípios do Nortão pesquisados

A pesquisa PEP Hans Brasil corrobora com os resultados de estudo mundial, realizado em mais sete países com alta incidência para hanseníase, que apontam o uso do antibiótico rifampicina, em dose única, na rotina dos serviços de saúde, como medida preventiva às pessoas que convivem com pacientes diagnosticados com a doença. Essas pessoas, consideradas contatos, estão aptas a receberem o antibiótico após o descarte do diagnóstico de doenças como hanseníase e tuberculose, estado de gravidez, entre outros critérios de exclusão.

Desde 2008, os resultados de um estudo realizado em Bangladesh já mostravam a efetividade do uso desse antibiótico em dose única para redução do risco de adoecimento entre os contatos, mas faltava testar a viabilidade nas diferentes estruturas de serviços de saúde. O Brasil ocupa a 2ª posição mundial entre os países que registram casos novos da doença. A hanseníase permanece como um importante problema de saúde pública no Brasil, que concentra mais de 90% dos casos de hanseníase na região das Américas.

O estudo, realizado em 16 municípios com alta incidência em Mato Grosso, Pernambuco e Tocantins, mostrou que a prevenção da hanseníase é factível e pode ser operacionalizada na rotina dos serviços de saúde para o Brasil. O PEP Hans Brasil confirma e segue o protocolo internacional do programa L-PEP e, diferente dos demais países, inclui a vacina BCG às pessoas do convívio dos pacientes com hanseníase. A vacina BCG, indicada ao nascimento para prevenir tuberculose, é apontada em alguns estudos científicos, por seu efeito indireto, para prevenir formas graves de hanseníase, por meio de uma segunda dose para os contatos. A diferença entre o programa de rotina implantado no Brasil, desde os anos 1990, e a proposta do protocolo internacional, seria fortalecer as atividades de busca de casos novos para obter um diagnóstico ainda mais precoce e tratar os contatos com antibiótico preventivamente, de modo a diminuir e evitar a propagação da doença.

No Brasil, o trabalho de campo da pesquisa PEP Hans foi realizado entre maio de 2016 e dezembro de 2018. A pesquisa foi coordenada pela professora Eliane Ignotti, da Universidade do Estado de Mato Grosso, e financiada pela fundação suíça Novartis e pelo Ministério da Saúde por meio da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Ignotti contou que, após os resultados dos estudos, os países endêmicos estão se organizando para implementar a dose única do antibiótico aos contatos de hanseníase em seus respectivos países.

A professora Eliane Ignotti, que foi membro do comitê técnico assessor para hanseníase da Organização Mundial de Saúde (OMS) entre junho de 2016 a 2019, explica que este grande estudo operacional foi planejado desde 2014 para o Brasil, concomitantemente com os outros sete países.

O estudo mundial Program L-PEP foi realizado em oito países endêmicos: Brasil, Camboja, Índia, Indonésia, Mianmar, Nepal, Sri Lanka e Tanzânia, após debates internacionais, em 2013, que discutiam a necessidade de um estudo que verificasse o uso preventivo de rimfapicina.

A pesquisa brasileira contou com apoio técnico de professores da Unemat, entre eles Denise da Costa Boamorte Cortela e Gleber Nelson Marques, e dos profissionais de saúde dos 16 municípios trabalhados com alta incidência de hanseníase. Em Mato Grosso foram Rondonópolis Alta Floresta, Apiacás, Carlinda, Nova Bandeirantes, Nova Monte Verde e Paranaíta; em Pernambuco, os seis municípios da Regional de Saúde de Petrolina; e, em Tocantins, os municípios de Colinas do Tocantins e Araguaína. Juntos, os municípios somam uma população de cerca de um milhão de habitantes, com 800 casos novos de hanseníase ao ano, 200 unidades básicas de saúde com cerca de 200 médicos, 200 enfermeiros, 200 técnicos de enfermagem e 2.000 agentes comunitários de saúde.

Nas quatro grandes áreas, Alta Floresta, Araguaína, Petrolina e Rondonópolis, havia unidades de referência em hanseníase e profissionais especializados, além de um ponto focal que coordenava as atividades do PEP-Hans.  “Foi preciso contar com essa legião de profissionais para examinar os contatos de cada caso novo. Além dos casos de 2016 a 2018, também foram examinados os contatos do período retrospectivo de 2015”, explicou a coordenadora da pesquisa.

Segundo Eliane Ignotti, nestes 16 municípios foram listados 24.219 contatos, entre eles foram desconsiderados 2.444 casos por duplicidade e 21.775 foram examinados. Entre os examinados, 17.217 estavam aptos e receberam a dose única do antibiótico e 308 casos novos foram diagnosticados e tratados. “O diagnóstico precoce é uma das armas para reduzir a cadeia de transmissão. Cada caso novo de hanseníase deve ser assumido como o ponto inicial de uma complexa investigação epidemiológica, a exemplo de outras doenças infecciosas”, comentou Ignotti que, além de pesquisadora, é professora de Epidemiologia do curso de Enfermagem da Unemat em Cáceres.

O estudo realizado no Brasil já aponta algumas considerações, como a motivação para a realização do exame de contatos pelas equipes e coordenações de saúde a partir do reconhecimento de “algo novo” a oferecer para a redução do risco de adoecimento dos contatos; a adesão dos pacientes em tratamento de hanseníase e dos contatos correlacionada à adesão dos profissionais de saúde; o baixo risco de efeitos adversos com o uso do antibiótico rimfapicina; o encorajamento e fortalecimento do programa de hanseníase nas localidades onde foi implantado; e a aceitabilidade do protocolo.

O grupo de maior risco de adoecimento são as pessoas que moram na mesma casa de quem tem hanseníase e, dependendo da proximidade, seus contatos de vizinhança e sociais. No Brasil, o tratamento para tratar e curar a doença, desde os anos 90, é a poliquimioterapia ou multidrogoterapia, que é a combinação de três antibióticos: rifampicina, clofazimina e dapsona.

Hanseníase é uma doença infectocontagiosa causada pela bactéria Mycobacterium leprae, ou bacilo de Hansen. Embora o bacilo tenha a capacidade de infectar grande número de indivíduos, é necessário um longo período de exposição à bactéria para contrair a doença, e apenas uma pequena parcela da população infectada realmente adoece. Entre os principais sintomas da doença estão: manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou amarronzadas em qualquer parte do corpo, com perda ou alteração de sensibilidade ao calor e frio, ao tato e à dor, que podem estar principalmente nas extremidades das mãos e dos pés, na face, nas orelhas, no tronco, nas nádegas e nas pernas.

A informação é da assessoria da Unemat.

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