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Crise derruba cotação do boi em MT no último ano

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A crise econômica pesou sobre a cotação da arroba do boi em Mato Grosso em 2016 e para este ano o comportamento dos preços é incerto. Com a diminuição na demanda pela proteína no mercado internacional e a queda no consumo interno -que absorve cerca de 80% da produção estadual – os preços da arroba do boi gordo não reagiram. Como pontuaram os analistas do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), 2016 foi o ano em que “faltou gado, mas sobrou carne”. E a relação entre a oferta e a demanda é que baliza as cotações no mercado.

No último ano, a cotação do boi gordo à vista manteve a média de R$ 131, ante o patamar médio de R$ 130 em 2015, segundo a Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat). As cotações cresceram abaixo do índice da inflação anual, como pontuam os analistas do Imea. Eles observam ainda que em 2016 foram abatidos 4,390 milhões de bovinos em Mato Grosso, sendo o 2º menor volume dos últimos 6 anos. Diante de uma oferta mais escassa, os preços habitualmente são pressionados para cima.

Contudo, não foi essa a reação do mercado, já que o consumo se manteve retraído, lembram os analistas do Imea. “Tanto internamente quanto no mercado externo, as vendas foram decepcionantes para Mato Grosso”. Dados extraídos pela reportagem da plataforma eletrônica Agrostat, alimentada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), mostram queda anual de 14,8% nas exportações nos últimos 2 anos. Em 2016 saíram de Mato Grosso 237,781 mil toneladas de carne bovina, que culminaram no faturamento de US$ 945,565 milhões.

Confrontados com os resultados de 2015, as exportações da proteína vermelha em 2016 representam decréscimo de 27,45% nos volumes físicos negociados e de 14,81% na receita comercial. Já em 2015, a indústria frigorífica havia comercializado menos que em 2014. No penúltimo ano foram exportadas 253,479 mil toneladas de carne bovina, ante 278,512 mil em 2014. Os embarques movimentaram US$ 1,303 bilhão em 2014, e o faturamento caiu para US$ 1,110 bilhão no ano seguinte. “O preço da arroba (do gado) precisa melhorar”, comenta o vice-presidente do Sindicato das Indústrias Frigoríficas de Mato Grosso (Sindifrigo/MT), Paulo Bellincanta.

Para isso, é preciso que o mercado consumidor reaja, movimento que depende da recuperação do poder de compra da população e dos países consumidores, complementa. “O Brasil tem acesso a mercados consumidores que estão em crise, como os países produtores de petróleo (Venezuela e países do Oriente Médio)”. Só que em torno de 25% da produção nacional é exportada. Com o consumo interno retraído, as indústrias buscaram vender mais para outros países, mesmo a preços menos atrativos, pontua Bellincanta. “O preço em dólar caiu muito. A China, que passou a comprar no final de 2015, ficou muito ofertada e passou a pagar menos”.

O vice-presidente do Sindifrigo/MT estima perdas entre US$ 400 a US$ 600 por tonelada. Como 2017 começa com 12 milhões de brasileiros desempregados, Bellincanta avalia que o consumo interno se manterá no nível atual nos próximos meses. Um dos pontos positivos para a indústria, complementa ele, é a elevação da alíquota do imposto estadual cobrado pela saída de bovinos vivos do Estado, que passou de 7% para 12%. Dessa forma, a disponibilidade de animais para o abate local pode aumentar e a ociosidade das indústrias diminuir, revertendo o número de unidades paralisadas atualmente.

Superintendente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Francisco Manzi, também associa a recuperação dos preços da arroba do gado à retomada do consumo interno e internacional. Ele lembra que o consumo brasileiro per capita de carne bovina equivale a 37 quilos e que a freada na demanda foi motivada pelo enfraquecimento do poder aquisitivo. Manzi relembra que novos mercados consumidores surgiram no último ano, como os Estados Unidos, que adquiriram carne pela 1ª vez após 17 anos de negociação com o Brasil. “Isso abriu portas para que outros países comecem a importar o produto brasileiro, como Canadá, México e Japão. Então, a gente acredita que poderá haver a retomada dos preços se aumentar o consumo, mas o crescimento não deve ser muito grande”.

Conforme análise do Imea, 2017 ainda deve sofrer com os resquícios da crise econômica que atingiu o país em 2015 e 2016. Os problemas devem refletir na bovinocultura de corte, que depende do comportamento do consumo brasileiro. “Já há certa concordância no mercado de que a taxa de desemprego só deve voltar a cair em meados de 2017”, pontuam na análise. “Do lado da oferta, destaca-se uma possível reversão do ciclo pecuário, existindo indícios de um aumento na quantidade de bezerros disponíveis e de bovinos aptos para o abate em 2017”, descreve o instituto em boletim da bovinocultura. 

Varejo – Pesquisa de preços realizada pelo Imea no varejo em dezembro passado mostra que dos 16 cortes de carne bovina comercializados, 9 encareceram em comparação com novembro, com destaque para a fraldinha (6,88%), contrafilé (5,87%) e costela (4,05%). Seis tiveram redução de preços e apenas 1 teve o preço mantido. Responsável pelas compras do restaurante que mantém em Cuiabá, Vandair Furrer Monteiro, reparou na alta de preços da carne no último ano. Apesar disso, não conseguiu diluir o aumento nas refeições que vende. “Faz um ano e meio que não reajusto o preço, que está mantido em R$ 29,90 o quilo. O único jeito de economizar é comprar os produtos nas promoções dos supermercados. Chego a ir duas vezes ao supermercado num único dia”.

Fonte: A Gazeta (foto: Edson Rodrigues/arquivo)