Como enfrentar as queimadas na região do Pantanal é um dos desafios analisados por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em artigo publicado na revista Global Change Biology. O estudo aponta as mudanças climáticas e hidrológicas como fatores que impulsionam os incêndios na maior zona úmida do mundo. Intitulado “Climatic and Hydrological Changes Drive Contemporary Fire Regime Transitions in the World’s Largest Wetland”, o trabalho reúne dados de quase 40 anos, entre 1985 e 2024, com foco na área queimada e no tamanho dos incêndios para analisar a dinâmica do fogo.
O pesquisador Lucas Barros da Rosa, autor principal do artigo, explica que os dados destas quatro décadas apontam mudanças que devem continuar nos próximos anos. “Nos últimos 40 anos, identificamos que a redução das inundações, a queda na precipitação e o aumento da aridez atmosférica (déficit de pressão de vapor) têm impulsionado alterações profundas no comportamento do fogo no Pantanal. A projeção climática feita por outros estudos indica que esses fatores climáticos devem continuar mudando nas próximas décadas”, explica o pesquisador.
De acordo com o estudioso, o levantamento baseou-se inteiramente em séries temporais de dados de satélite (1985-2024). “Para área queimada, tamanho médio dos incêndios e dinâmica da estação de fogo, utilizamos o mapeamento de cicatrizes de queimadas da iniciativa MapBiomas, que utiliza dados da constelação de satélites Landsat. Além disso, integramos esse histórico de fogo a variáveis climáticas e hidrológicas de outras fontes e satélites para investigar os vetores dessas mudanças”, destaca o pesquisador Lucas Barros da Rosa enfatiza, porém, que é preciso cautela ao analisar o cenário climático.
“Nossos dados de 40 anos não apontam, por si só, a consolidação irreversível de um novo estado permanente, mas evidenciam que estamos em meio a uma transição estrutural no regime de incêndios. Para modelar com maior precisão o futuro do bioma, novos estudos precisarão ampliar ainda assim as séries históricas. De qualquer forma, o cenário atual já é alarmante: as alterações na forma como o fogo se comporta hoje diferem drasticamente do padrão histórico das primeiras décadas analisadas”, reflete.
O professor Jerry Penha, aponta que o estudo tem a proposta de apontar caminhos na redução dos incêndios. “O estudo sugere que a redução dos incêndios no Pantanal, sob mudanças climáticas e de uso da terra, deve ser tratada como um problema de conectividade hidroecológica e governança multiescalar, no qual conservação e restauração no Planalto e na Amazônia sustentam as condições ambientais, enquanto o manejo integrado do fogo atua localmente sobre o risco que permanece”, comenta o professor.
A principal iniciativa proposta é estruturar iniciativas que caminhem de forma integrada. “Para enfrentar essa crise, a gestão local do fogo, como o uso de calendários de queimadas prescritas e sistemas de alerta, precisa caminhar lado a lado com políticas de conservação em escala de bacia hidrográfica, olhando para fora dos limites do Pantanal”, analisa o pesquisador Lucas Barros da Rosa, apontando para a necessidade de olhar outros espaços como a Amazônia e o Planalto Central.
Para o pesquisador, há a necessidade de atuar pela garantia de umidade na região. “A Amazônia é a principal fonte de umidade, os chamados “rios voadores”, que alimenta as chuvas na bacia do Alto Paraguai, onde está o Pantanal. Grande parte dessa umidade precipita na região do Planalto, a região mais elevada da bacia, que circunda o Pantanal e abriga as principais nascentes dos rios que formam a planície inundável”, pontua, acrescentando que alterações no uso do solo no Planalto têm reduzido drasticamente o volume e a dinâmica da água que abastece o bioma.
O pesquisador Lucas Barros da Rosa conta que a substituição de vegetação nativa por pastagens e agricultura, somadas ao represamento de rios por pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), obras hidroviárias e drenos artificiais, também influenciam o volume de água que está presente no Pantanal. “Portanto, proteger o Pantanal exige que os esforços de conservação e regulação do uso da água e do solo alcancem também o Planalto e o suporte climático da Amazônia, combatendo as pressões que secam o bioma na origem”, finaliza.
Receba em seu WhatsApp informações publicadas em Só Notícias. Clique aqui.


