Uma parceria científica internacional entre a Universidade de Manchester, no Reino Unido, a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e a organização internacional sem fins lucrativos focada em ciência climática de alta tecnologia CTrees, dos Estados Unidos (EUA), resultou no mapeamento inédito de toda a extensão e dinâmica de distúrbios na vegetação da Zona de Transição Cerrado–Amazônia. O estudo, publicado na prestigiada revista científica Biological Conservation, cobriu um período de 35 anos (1986–2020) e expôs dados alarmantes sobre o avanço do desmatamento e do fogo em um dos maiores ecótonos floresta–savana do planeta.
Os resultados revelam que, em uma estimativa conservadora, pelo menos 493.050 km² da zona de transição sofreram algum tipo de distúrbio nas últimas três décadas (área superior ao território da Espanha). O corte raso na Floresta Amazônica foi o principal vetor de degradação, respondendo por 35% do total da área afetada, impulsionado pela expansão da pecuária e de lavouras. O desmatamento no Cerrado somou outros 20%, concentrando-se em municípios de intensa atividade agrícola em Mato Grosso, como Nova Ubiratã, Nova Maringá, Feliz Natal e Marcelândia.
Para alcançar esse nível de detalhamento em um território de mais de 1,1 milhão de km², a pesquisa utilizou um arcabouço tecnológico de última geração: combinou séries temporais de satélite Landsat ao algoritmo LandTrendr e a uma Rede Neural Residual unidimensional (1D ResNet), arquitetura avançada de aprendizagem profunda (deep learning). O grande diferencial do modelo foi a capacidade de diferenciar as marcas sutis deixadas pelo corte raso daquelas provocadas por incêndios na vegetação. Esse refinamento metodológico só foi possível graças à validação empírica realizada em solo mato-grossense. Os dados de campo do Laboratório de Ecologia Vegetal da Unemat, que monitora uma rede de parcelas permanentes na região de transição desde 1994, funcionaram como a base de calibração que garantiu a acurácia global do sistema (taxa de acerto geral do modelo matemático), que variou entre 79% e 83%.
Além da extensão do dano, os pesquisadores constataram uma severa perda de resiliência dos ecossistemas. Mesmo dez anos após a ocorrência de incêndios, nem a floresta amazônica, com recuperação de 80% dos níveis espectrais pré-distúrbio (de acordo com os registros por satélite da floresta antes dos incêndios), nem o Cerrado, com apenas 60%, retornaram às suas condições originais.
Os professores da Unemat, doutora Beatriz Schwantes Marimon e doutor Ben Hur Marimon Junior, que integram as redes de pesquisa de Inventário Florestal Amazônico (Rainfor) e de Monitorização Global de Ecossistemas (GEM), destacam o peso do monitoramento contínuo para dar escala global aos fenômenos locais. “Passamos décadas monitorando essa zona de transição em expedições de campo. Nossas redes de parcelas documentam alterações na mortalidade de árvores, perda de biomassa e degradação de florestas. O que este novo estudo faz, e é isso que o torna tão poderoso, é conferir a essa realidade de campo uma dimensão regional. Ele confirma aquilo sobre o qual temos alertado: esta zona de transição é um dos ecossistemas mais vulneráveis do planeta, e sua proteção continua sendo completamente insuficiente”, afirmam os docentes.
A fragilidade da região é acentuada por um gargalo na governança ambiental. Enquanto o bioma Amazônia conta com cerca de 28% de seu território sob regime de áreas protegidas, a Zona de Transição Cerrado–Amazônia possui apenas 2% de sua extensão resguardada por unidades de conservação.
A partir do diagnóstico detalhado pelos mapas gerados, os autores do estudo elencaram três prioridades urgentes para a formulação de políticas públicas de conservação e mitigação: Proteção territorial: Criação e ampliação de unidades de conservação, terras indígenas e corredores ecológicos nas faixas de fronteira mais pressionadas. Governança do fogo: Regulamentação rigorosa e fiscalização contra queimadas antrópicas em áreas de baixa recuperação, com a integração do conhecimento de povos indígenas e comunidades tradicionais no manejo do fogo. Restauração ativa: Implementação de programas de reflorestamento induzido em regiões onde a regeneração natural faliu, alinhando as ações às metas do mecanismo internacional de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+) e ao acordo histórico internacional Marco Global de Biodiversidade.
A metodologia desenvolvida no estudo, além de subsidiar o planejamento em território nacional, possui caráter transferível, podendo ser aplicada no monitoramento de outras fronteiras tropicais críticas do planeta, como o Gran Chaco sul-americano e as florestas de Miombo, na África.
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