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De Epstein à realidade doméstica

Claiton Cavalcante Contador, membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis
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O lançamento no Brasil do livro Garota de Ninguém, relato da advogada e ativista Virginia Giuffre sobre os abusos sofridos no esquema comandado pelo investidor e magnata Jeffrey Epstein, ambos posteriormente mortos por suicídio, reacendeu a discussão sobre violência, poder e silêncio. Embora o caso tenha ocorrido em círculos de riqueza e influência internacional, ele toca em um problema que está muito mais próximo do cotidiano das pessoas: a violência que nasce dentro de relações que deveriam ser de confiança.

O episódio envolvendo Epstein ganhou notoriedade mundial por expor redes de exploração e cumplicidade que permaneceram por anos protegidas pelo prestígio social e pelo medo das vítimas. Mais do que um crime, trata-se de um lembrete de como abusos podem prosperar em ambientes marcados por desigualdade de poder, nos quais o silêncio parece mais seguro do que a denúncia.

Guardadas as proporções, algo semelhante ocorre diariamente dentro de milhares de lares. A violência doméstica continua sendo um dos problemas sociais mais persistentes no Brasil. A maior parte das vítimas é formada por mulheres, razão pela qual o país desenvolveu instrumentos jurídicos importantes de proteção, como a Lei Maria da Penha. Ainda assim, os números permanecem elevados e revelam que o enfrentamento do problema está longe de ser suficiente.

Ao mesmo tempo, há um aspecto menos discutido do fenômeno. Embora em menor escala, homens também são vítimas de agressões físicas ou psicológicas praticadas por mulheres, situações que frequentemente permanecem ocultas pela vergonha, pelo machismo ou pelo receio de descrédito social. A violência doméstica, portanto, não deve ser compreendida apenas como um conflito de gênero, mas como um problema mais amplo de relações familiares deterioradas.

O ponto em comum entre essas diferentes situações é a erosão gradual do respeito dentro das relações. A violência raramente surge de forma abrupta. Ela costuma se desenvolver lentamente, iniciando com humilhações, controle excessivo ou dependência econômica. Quando esses comportamentos se tornam rotina, o ambiente familiar deixa de ser espaço de proteção e passa a ser terreno fértil para agressões que, pouco a pouco passam a ser naturalizadas pelos atores.

Nesse sentido, combater a violência doméstica exige mais do que punição criminal. A repressão é necessária, mas atua apenas quando o dano já ocorreu. A prevenção precisa começar antes. Com educação.

Uma primeira frente de enfrentamento está na educação para convivência e resolução de conflitos. O sistema educacional brasileiro ainda dedica pouco espaço ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais, como empatia, autocontrole e comunicação não violenta. Ensinar jovens a lidar com frustrações e limites dentro das relações humanas pode reduzir significativamente a reprodução de comportamentos abusivos na vida adulta.

Por fim, é necessário incorporar esse tema nas grades curriculares e ampliar a produção de dados e pesquisas sobre o assunto. Pois a subnotificação ainda é uma das maiores barreiras para compreender a real dimensão da violência doméstica no país.

O livro Garota de Ninguém, portanto, não trata apenas de um escândalo internacional. Ele serve como alerta de que abusos podem se desenvolver nos mais diversos ambientes, principalmente quando o silêncio passa a imperar dentro das relações.

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