Durante mais de 20 anos estive na linha de frente da causa animal. Eu e meu grupo resgatamos milhares de cães e gatos, castramos, tratamos e encaminhamos para adoção. Fizemos o que era humanamente possível, o que muitos chamam de “compaixão”. Mas é hora de ser honestos: compaixão sem consciência social é paliativo, não solução.
O Brasil enfrenta uma realidade alarmante. Estima-se que mais de 30 milhões de animais domésticos entre cães, gatos e outras espécies vivam em situação de abandono em nosso país. São vidas arrancadas da convivência familiar, jogadas à margem da sociedade e à mercê de fome, doenças e violência diária.
Dados mostram que mais de 80% dos casos de abandono acontecem em áreas urbanas, e os animais sem raça definida são os mais afetados. Além disso, levantamento recente aponta que cerca de 185 mil animais foram resgatados ou retirados de situações de maus-tratos por ONGs e grupos de proteção no Brasil, um número que reflete apenas a ponta do problema, pois muitos casos sequer chegam a ser registrados.
Foi diante dessa conjuntura que decidi fundar a Fundação Jane Zanetti. E deixo claro desde já: ela não nasceu para ser mais um abrigo. Abrigos existem para mitigar o sofrimento. A Fundação nasceu para transformar a causa animal em mudança social. Ela atua com base no conceito de Saúde Única, a compreensão de que saúde animal, saúde humana e meio ambiente são interdependentes. Esse conceito é moderno, necessário e urgente para um país que ainda lida diariamente com abandono, maus-tratos e desinformação.
O papel da Fundação é claro: educar, qualificar e conscientizar. Não apenas resgatar. Resgatar salva uma vida. Educar transforma uma cultura inteira.
A Fundação Jane Zanetti une ciência, educação e mobilização social para promover políticas públicas, capacitação comunitária e ampliação da consciência sobre o cuidado responsável. Porque é na base que se constrói a mudança: na escola, nas políticas públicas, nos valores transmitidos em cada família.
Portanto, fica o chamado: vamos parar de romantizar o resgate e começar a encarar a educação como a verdadeira vacina contra o abandono animal. Chega de enxugar gelo. Precisamos construir, juntos, uma cultura de respeito, responsabilidade e dignidade.


