Eu não imaginaria Nikolas personagem, naquele 1967, quando eu meditava sobre os versos de Caetano Veloso em Alegria, Alegria: “Caminhando contra o vento/Sem lenço, sem documento/No sol de quase dezembro/Eu vou”…”Por entre fotos e nomes/Sem livros e sem fuzil/Sem fome sem telefone/No coração do brasil.” Caetano tinha 25 anos e queria acordar o Brasil. Nesses versos vejo hoje Nikolas, 29 anos, caminhando para acordar o Brasil, abrindo caminho, como nos cantares do poeta espanhol Antonio Machado “Caminhante, não há caminho/ se faz o caminho ao andar”. Dois jovens, dois tempos, dois Brasis, mas hoje um país ainda “deitado em berço esplêndido”. Com tudo que a natureza deu, um país com pobreza, ignorância e futuro que não chega. Injustiça, corrupção, mentira motivaram Nikolas ao primeiro passo, de Paracatu a Brasília, no coração do Brasil.
Significativamente, o primeiro passo de Nikolas foi até o ponto mais alto da capital do Brasil, bem acima da Praça dos Três Poderes. A 1.173 metros acima do nível do mar, junto à cruz da primeira missa, vizinha de um lado, da Catedral da Paz, inaugurada pelo Papa; do outro lado, o Memorial que guarda os restos do fundador, Juscelino. Tornou-se domingo a praça do povo, a 6 km da praça dos poderes do estado. Um domingo cheio de significados; naquela manhã, era implodido um hotel chamado Torre, no mesmo Eixo Monumental onde está o Supremo, parecendo torre de marfim acima da Constituição. Torre essa sendo implodida em sua credibilidade por ação interna.
No início, em Paracatu, MG, era só Nikolas. Depois foram chegando outros, unidos no grito de Acorda Brasil! O verbo da caminhada foi acordar. O sujeito foi Brasil. Nenhum nome de pessoa. Apenas o coletivo que representa todos nós: Brasil. Nas margens da estrada, mais gente chegando; no asfalto, saudações em buzinas. Cristalina, Luziânia, Valparaíso de Goiás, Cidade Ocidental; depois Santa Maria, Novo Gama…- gente afluindo de toda a parte, multidões, gente levando comida, água, energéticos, capas, tênis, chapéus, cama. O sol bronzeou a cara de Nikolas.
A chuva frequente jogou sobre os romeiros um batismo como água do Jordão, pois havia um conteúdo espiritual que fortaleceu o corpo dos caminhantes.
Embora a maioria da mídia tradicional tivesse omitido a cobertura do fato político, as multidões por onde passavam Nikolas e companheiros mostraram a eficácia das redes sociais. Um raio do céu de Brasília interrompeu o boicote e tiveram que noticiar o acontecimento da história política. Na marcha não se falou em eleição e em candidaturas. Nikolas não tem idade para ser senador ou presidente. Mas reforçou a esperança no futuro. Foi capaz de mostrar a força da origem do poder, o povo, que antes estava anestesiado pelo medo desde a prisão coletiva e condenação dos manifestantes do 8 de janeiro. Não há democracia sem participação da origem do poder. Não há democracia quando servidores do povo esquecem regras da Constituição.
O caminhar removeu o medo que anestesiava. Símbolo áureo no final: sem medo da chuva torrencial, dos raios, dos ventos, o povo encheu a Praça do Cruzeiro e as imediações. A água do céu lavou o medo. Faz meditar em mais um verso, este de Eduardo Alves da Costa, sobre caminhar – “No Caminho, com Maiakovski”. …roubam uma flor/ do nosso jardim./ E não dizemos nada./Na segunda noite, já não se escondem:/pisam as flores,/matam nosso cão,/ e não dizemos nada./ Até que um dia,/o mais frágil deles/ entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz, e,/ conhecendo nosso medo,/ arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos dizer nada.


